Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
A Arte de Ser Religioso
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autora: Anne Marie Lucille [1]
Seria o Homem capaz de Criar em Si mesmo o Verdadeiro Sentimento de Religiosidade?
"Se o homem busca a unidade entre seus semelhantes, a religião como nós a conhecemos, pelo seu partidarismo e culto à intolerância e consequente violência, não nos parece ser esse caminho..."
A Arte de Ser Religioso
O medo é ainda a Autoridade que controla nossos sentimentos religiosos...
A Arte de Ser Religioso
O medo é ainda a Autoridade que controla nossos sentimentos religiosos...

Hábitos eis o que buscamos sempre. A rotina é uma agradável zona de conforto, um oásis dentro do caos urbano que a todos agrada. Segurança é a palavra chave. Quem não deseja certeza em tudo que faz ou empreende? Por isso a repetição de hábitos se torna tão importante em nossas vidas, ao menos com as coisas que dão certo.

O medo é o ápice do sentimento de insegurança, por isso mesmo, todos os meios que supostamente nos conduzam até ele deverão ser evitados. Assim cuidamos de criar as muralhas físicas que nos protegem dos riscos externos, e também as muralhas internas, cuja função é nos resguardar das ameaças psicológicas criadas pelos nossos pensamentos. Sim, são nossos pensamentos os criadores e causadores das nossas ameaças internas, da maioria do nosso acervo de psicopatologias.

Com tijolos e grades, aparentemente, somos capazes de nos abrigar das ameaças materiais da nossa sociedade. Já das internas, aquelas virtuais ou mentais, dos sentimentos negativos criados pelo nosso pensar, como poderíamos nos blindar desse tremendo assédio, seria isso possível? Muralhas das mais sólidas pedras e grades do mais resistente metal, nada disso é suficiente para tanto.

E há também as incertezas da vida, o resultado, muitas vezes, sempre imprevisível das inúmeras variáveis e circunstâncias que ditam nosso viver diário. São os desdobramentos dos problemas causados por nós, ou aqueles que nos afetam de forma indireta. Afinal de contas, tendemos naturalmente a nos identificar, inicialmente de forma involuntária, com os problemas que afetam nossos amigos, ou nossos entes queridos, e também aqueles do mundo lá fora.

Parece que não conseguimos viver sem eles, os problemas, e mesmo quando não nos perturbam, aparentemente, até como uma forma bizarra de ocupação, tentamos nos envolver com os alheios. Emocionalmente, julgamos que isso é necessário, que faz parte da nossa pauta de martírios pessoais, e que se trata de uma expressão válida de solidariedade, compaixão ou fraternalismo.

Entretanto, não pode ser um sentimento de compaixão, uma vez que ainda somos competitivos, violentos, invejosos, e nos iludimos com a ideia de que precisamos nos impor diante dos demais, talvez como simples argumento para a exibição de nossas qualidades, virtudes, supremacia ou superioridade.

Imagine se todos os nossos atos, aquilo que chamamos de boas ações ou gestos filantrópicos, fossem praticados com a certeza absoluta de que nenhuma compensação, reconhecimento ou mérito entraria em nossa caixinha de créditos?

Imagine ainda se soubéssemos, com absoluta lucidez e segurança, sem que houvesse nenhum espaço para dúvidas, de que, jamais, em nenhum momento existencial ou pós-existencial, haveria ressarcimento por qualquer “boa ação” praticada em vida? Então, qual seria a qualidade dos nossos atos? Qual seria o nosso real sentimento e motivação para qualquer tipo de obra assistencial ou fraternal depois de constatado de forma irrefutável esse fato?

Sabemos como uma criança age, quer dizer, qual a sua principal fonte de motivação? E a nossa principal fonte de motivação, esta, será que conhecemos bem? Observe uma criança, o modo como foi condicionada para enxergar o mérito como o único e mais eficaz fator de estímulo; como elas foram treinadas para associar ações praticadas às recompensas, ou o seu inverso, aos castigos.

Moldamos suas emoções. E a cada gesto e comportamento adequado, sempre há um incentivo como força motriz. Ocorre que esta já é a nossa conduta natural, por isso forjamos nossos filhos a nossa imagem e semelhança. O resultado não poderia ser diferente. Incentivo ou mérito é a chave mestra que abre todas as portas, sejam recompensas concretas ou simplesmente promessas de fabulosos presentes espirituais.

Sendo assim, como podemos afirmar que há em nós um sentimento voluntário de complacência em relação aos nossos semelhantes, uma identificação autêntica com suas amarguras – por sinal, idênticas às nossas –, se temos no culto ao mérito a única força capaz de criar em nós motivação para realizar alguma obra? Haveria possibilidade de agirmos sem a sombra do mérito ou da compensação a nos fazer lastro?

Qual seria a qualidade de uma mente capaz de agir sem a lembrança de que uma compensação o aguarda num ponto temporal qualquer de sua existência, ou mesmo após ela? A plena convicção da ausência de uma recompensa, ou reconhecimento por ação praticada, tornaria o homem diferente daquilo que atualmente é? Qual seria então a sua fonte de motivação, seu motivo existencial, a causa que tornaria alegre e compensador o seu viver?

Numa situação de tal natureza, não haveria espaço para crenças de espécie alguma, uma vez que todas elas estão centradas no eixo do “dar para receber”. Sem a expectativa do receber ao dar, qual seria a qualidade desse novo homem? Imagine quais são causas de todos nossos conflitos, mágoas, ressentimentos, invejas, medos, senão o desejo de retribuição por ato praticado. Sou cortês porque também desejo que comigo assim o sejam, eis a regra geral, eis um fato que não pode ser refutado.

Diante da certeza da não retribuição, ainda assim haveria ação solidária de alguma espécie? Somos capazes de imaginar, simular em nós mesmos um sentimento de tal magnitude?

Sem o sentimento da troca, sem desejo de gratidão ou reconhecimento meritório; sem promessa de inferno ou céu, poderia o homem viver sobre a terra em paz consigo mesmo? Se isso fosse possível, qual seria a qualidade de sua mente, seus sentimentos, suas ações? A isso, apenas a isso, poderíamos afirmar tratar-se de um sentimento de verdadeira compaixão, ou genuína religiosidade.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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Sobre a Autora:

[1] Anne Marie Lucille - annemarielucille@yahoo.com.br
Franco-brasileira, pesquisadora na área da Psicopedagogia e Antropóloga. Atua como consultora educacional especializada em Educação Integral e Consciencial.
A autora não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

Mais artigos da autora em: http://www.sitededicas.com.br/holistica_index.htm

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