Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
A Competição como Modelo de Ação, ou Deformação...
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autora: Ester de Cartago
"Se competir é o único caminho capaz de nos conduzir à felicidade, então, viver em paz será impossível..."
"Imaginar que o sucesso pessoal contempla apenas competir repelindo adversários, equivale a acreditar no mito do inteiro fracionado..."
A Competição como Modelo de Ação ou Deformação
A verdadeira inteligência não é uma condição que se consegue através do aprendizado, mas um status que aflora quando percebmos nossa ignorância...
A Competição como Modelo de Ação ou Deformação
A verdadeira inteligência não é uma condição que se consegue através do aprendizado, mas um status que aflora quando percebmos nossa ignorância...

"A única competição saudável que existe é quando o antagonista somos nós mesmos..."

Quando observamos alguém, uma pessoa que não conhecemos, logo também por força do nosso condicionamento, que chamamos de hábito, procuramos de alguma forma enquadrá-la numa classe social ou status imaginário, criando para ela um perfil, e inicialmente fazemos isso a partir dos estereótipos que nos ajudam a classificá-la. Num primeiro olhar, verificamos sua etnia, depois o modo como se veste; em seguida seus gestos ou traços comportamentais aparentes, e caso surja uma oportunidade, seu nível de conhecimento, e assim por diante.

O passeio público se torna, antes de tudo, uma espécie de passarela onde todos podem se exibir, mostrar aquilo que aparentemente têm de melhor. E assim, o simples ato de caminharmos em lugares frequentados por muitos, desperta em cada um o desejo de ser importante, de exalar ou exaltar sua força presencial, de expressar seus dotes pessoais de modo a se diferenciar, de se destacar dos demais.

E uma coisa aparentemente simples como ir às compras, por exemplo, se torna uma competição, pois estaremos disputando, de algum modo, uns contra os outros, no mínimo a preferência da atenção do resto da platéia.

É certo que não podemos prescindir das relações em nosso viver, mas logo transformaremos este fato num enorme problema. Mas, será que nos damos conta de que, quase tudo em nossas vidas, em nossas relações, gira em torno de um modelo competitivo, uma eterna condição centrada na disputa por alguma coisa?

Talvez seja uma coisa tão natural que a maioria é incapaz de perceber. Afinal de contas é isso que nos ensinam nas escolas, em casa, no templo religioso, no trabalho, nos esportes, no lazer. É, enfim, a chave mestra do nosso atual modelo existencial. Existirá alguma ação de nossa parte que não seja motivada por uma proposta de ganho? Ganhar significa a coroação de um mérito, uma evidência concreta da conquista de uma vantagem; a certeza de que chegamos à frente de alguém.

O significado, ou objetivo da vida, decerto é aquele que damos a ela, uma vez que a natureza não delegou para nós, de próprio punho, nenhuma cartilha com estas recomendações, proposições ou protocolos formais.

E já que não conhecemos qual a destinação de nossas vidas, delegamos a terceiros essa deliberação. Assim, a autoridade de todas as tradições, a mesma que acaba por criar as regras gestoras das sociedades, nos dirá qual deverá ser nossa conduta, nossos desejos, o que devemos cultuar como prioridades, qual a finalidade do nosso inteiro viver.

É um modelo, no qual, cada espaço deve ser conquistado, e aquilo que já possuímos deve a todo custo ser mantido. Nesse modo de vida, que foi idealizado pelos nossos ancestrais antes da nossa existência, a felicidade é uma coisa que pode ser comprada, ou tomada à força de quem supostamente já a possui. Quem a possui, se quiser, pode vender, ou emprestar para outros, desde que seja regiamente compensado.

Como podemos idealizar a igualdade entre os povos se nós, de livre arbítrio, cultuamos o nacionalismo, as ideologias, a exaltação à raça, a hierarquia do status? Como podemos defender a igualdade religiosa se há uma segmentação intencional de acordo com os preceitos de cada crença, doutrinas nas quais fomos condicionados desde a infância? E também estamos criando antagonismos e comparações no momento em que saímos a campo para defender, como se fosse uma propriedade nossa, inegociável, caracteres da nossa mesologia, da nossa raça, dos costumes, crenças e hábitos próprios de cada povo.

Não é de estranhar quando verdadeiras batalhas entre os líderes e filósofos sociais são travadas para outorgar a propriedade de alguma tradição milenar, para promover a superioridade de uma ou outra etnia, ou credo. E fazemos questão de sublimar nossa raça, e os rituais e cultos escolhidos como autoridades para a regência de nossas vidas. Vestimos roupas que identificam nossas origens, e lutamos para defender nossa cultura popular, nossa culinária, nossos ícones, e com isso estamos em luta silenciosa, ou aberta, contra todos que não façam parte do nosso grupo, que não adotem o mesmo modelo de conduta, crenças ou estereótipos.

E o mundo se torna uma grande arena, onde a competição se torna a regra. Lutamos para impor nossas tradições, nossas preferências e opiniões; nossa religião e nacionalidade, nosso saber e estilo de vida. Estamos em disputa contra todos, mesmo contra aqueles que residem dentro de nossa casa.

Competimos contra nossos irmãos, nossos pais, nossos amigos, com quem quer que seja. Parece que nossa racionalidade se limita a uma designação genérica da espécie à qual pertencemos, pois nunca agimos de modo coerente, sensato. Nunca nos aproximamos de um estado de conciliação nos interrelacionamentos, mas, antes disso, cada vez mais nos focamos nos antagonismos e conflitos, e todo nosso processo existencial parece se resumir a isso.

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