Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
O Mito do Sonho da Liberdade
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autora: Anne Marie Lucille [1]
Para cada um de nós, o que exatamente significa o sentimento de Liberdade pessoal, será que sabemos?
"Para o animal acostumado ao cativeiro, liberdade significa apenas ser capaz de enxergar através das frestas das grades..."
O Mito do Sonho da Liberdade
Na orientação correta, disciplina, atenção e afeto, tudo isso já está incluído...
O Mito do Sonho da Liberdade
Na orientação correta, disciplina, atenção e afeto, tudo isso já está incluído...

Para quem já nasceu em um cativeiro com muitas janelas, liberdade significa apenas ser capaz de, eventualmente, trocar de janela...

Para nós, indivíduos sociais, de todas as nações, aprender significa estar apto a reproduzir gestos, vocábulos, conceitos, comportamentos. Na escola aprendemos o significado das letras, e depois qual a sua utilidade em nosso dia a dia; como se pronunciam, como são formadas as frases que nos livros de leitura, mais tarde, precisamos interpretar.

Há também a adequação às normas, aos costumes não aceitos e aceitos, e a tudo isso chamamos de educação, e faz parte do nosso processo cognitivo. Assim, um indivíduo que conhece e pratica as normas é considerado educado, disciplinado, formalmente enquadrado, moralmente adequado e integrado. Sobre os motivos pelos quais as normas precisam ser respeitadas, as crianças ou os jovens quase nunca são informados.

Como ainda não possuem personalidade, logo, esse conjunto de normas e conceitos são inseridos em seus cérebros, como diretrizes, protocolos, gabaritos de conduta. E tudo isso irá se transformar em comportamentos. Estará assim criada sua identidade individual. Então a criança pode afirmar: “agora eu sou alguém.”

Nesse contexto, disciplina quer dizer: seguir à risca o que foi estabelecido como regra. Acrescenta-se a essa base teórica a experiência de vida, e aos poucos, o indivíduo ganha em definitivo a personalidade que o representará como gente no meio onde vive. Terá um nome, funções a exercer, um posicionamento mental, ideais e ideias. Acreditará que é único em suas conclusões, preferências e convicções. Não terá dúvidas de que é original e inteiramente livre para decidir o que deve fazer da sua vida.

Terá consigo o ideal de que o mundo seria melhor, se psicologicamente fosse semelhante a ele próprio. Terá um conjunto de crenças, manias e desejos que julga tratar-se de coisas absolutamente necessárias e indispensáveis ao seu viver. Acreditará que um dia irá se realizar como pessoa, tudo isso, se conseguir conquistar cada item que a sociedade decretou como requisitos, prerrogativas, objetivos imprescindíveis para sua felicidade e plenitude existencial.

E existem as obrigações. Afinal de contas, como uma entidade atuante e com uma função, qualquer que seja, dentro do bioma social onde está inserido, esse indivíduo logo se imagina como singular em importância. Se vê ainda como merecedor de todas as prendas, que, de acordo com suas crenças e fantasias, seria o caminho capaz de lhe proporcionar algum tipo de satisfação pessoal. Pode ser uma viagem mágica, a degustação de uma iguaria exótica, um relacionamento amoroso tirado dos contos de fadas, o reconhecimento público do seu valor como profissional, ou destaque exitoso como qualquer outra coisa.

Não percebe o quanto está comprometido em conquistar, a qualquer custo, o ideal de felicidade que lhe prescreve o meio social, onde quer que viva. Há objetivos bem definidos que precisa cumprir. Deverá também se consagrar em sua profissão, em suas relações pessoais, ou como multiplicador de costumes eleitos como edificantes. E também como defensor dos tabus e crenças, objetivos com os quais tenha empatia, que ora realçam seu comportamento e caráter; suas emoções, todo seu modo de pensar, sentir e agir.

Condicionado por tudo isso, acredita agora que é importante, que é merecedor de alguma coisa mais, embora não saiba claramente qual é essa coisa. Por isso espera que outros lhe digam do que se trata. Limitado pela individualidade, não consegue enxergar no outro que está ao seu lado, que são iguais em conflitos, em aflições e desejos. Ao contrário, aprendeu desde cedo que seu semelhante é também seu concorrente ou oponente, um sujeito contra quem, por algum motivo, está em permanente estado de disputa.

Ele aprendeu isso desde os primeiros passos na escola, ou em casa, ou ainda em seu templo religioso exclusivo; enfim, em todos os demais lugares onde foi capaz de por os pés, olhos e ouvidos. Precisa chegar primeiro, aprender mais rápido, obter mais reconhecimento público, e como obstáculos para todas suas conquistas, os demais indivíduos à sua volta, doravante são considerados.

Aprendeu assim, ensinará isso aos seus herdeiros. E apesar de infeliz e com medo do fim iminente, não tem coragem de parar e refletir, e questionar, por que não pode ser livre para pensar e decidir; para caminhar, para errar, para sentir. Livre de dogmas, sem a esmagadora influência dos guias, das autoridades, que acabam por fossilizar sua sensibilidade, por direcionar, embrutecer e atrofiar quase todas suas emoções.

E embora não saiba do que se trata, fala em liberdade. E vislumbra na aposentadoria por tempo de serviço, esse ideal. Um arquétipo que também faz parte da mesma cartilha que o domesticou, que conduziu todo seu processo doutrinário; que o criou como personagem ativo desse complexo melodrama.

Não percebe que o tempo gasto para estudar, trabalhar, conseguir alcançar seus objetivos, lhe toma toda a vida. Não há espaço para mais nada. Logo uma conquista é substituída por outra, e outra. E assim passará todo seu viver, sempre ocupado, sonhando com o dia onde terá longas horas de absoluta ociosidade, onde finalmente poderá sentar-se confortavelmente à frente de sua televisão e deixar-se levar pela fantasia alheia. Mas é incapaz de perceber que já vive desse modo, encarcerado nas lacunas e intervalos do escasso tempo livre, quando retorna do trabalho, da escola, do lazer, ou simplesmente quando se julga ocioso.

Não há espaço para questionamentos e reflexões. Todas as horas dos seus dias estão repletas de atividades, de compromissos, de diversão, de objetivos que precisam ser alcançados a todo custo. Sua vida se torna mecânica, um ritual diário inflexível, regido pelos dias da semana, pelo relógio. O meio lhe diz o que fazer, porque deve fazer, quando o deve. Enquanto isso, no fundo, ainda não se deu conta de que o tempo perdido não poderá jamais ser recuperado. Não consegue enxergar esse fato, pois está ocupado demais na ânsia de atingir as metas que julga necessárias à sua felicidade, ou liberdade existencial.

Desse modo, será fisgado pelo sonho de um ideal difuso, sob o jugo de protocolos estabelecidos pela tradição, onde está escrito que tudo isso é coisa necessária, onde se inclui a obrigação de trabalhar sem parar, enquanto força tiver; de manter-se ocupado durante toda sua juventude, até que seu vigor físico decline. Agrilhoado por tantos compromissos, como poderá enxergar o fato óbvio de que, ao se aposentar, já não será mais jovem, nem terá o mesmo entusiasmo de antes? Ainda demora em perceber que o tempo lhe será o bem mais precioso, mas agora, infelizmente, já não o possui, como antes.

Não terá mais tempo, e agora vem o fato mais dramático: não se sente mais motivado, nem tem a força que na juventude usou para conquistar sua independência, ou suposta liberdade. Perceberá que ainda não é livre, nunca o foi, talvez nunca o seja. Sua fisiologia mudou, suas forças físicas e mentais caducam, seu ímpeto acabou, será agora cativo de si mesmo e de suas limitações. Sonhará com um mundo melhor, não porque não tenha vivenciado bons momentos, mas, porque continua pensando em liberdade, a mesma liberdade que um dia a sociedade prometeu que teria, caso trabalhasse com afinco, até o esgotamento de sua vitalidade.

A angústia até que poderá esconder dos outros, mas jamais de si mesmo. Saberá com clareza que não é feliz; não o pode ser, pois muita coisa que a “cartilha” estabelecia como necessária para a conquista desse estado de graça acabou se perdendo pelo caminho. Publicamente, por uma questão de fidelidade com seu Ego, que teima em sentir-se importante, destacado, superior aos demais, jamais irá admitir que não desfrutou de uma vida plena, repleta de felizes experiências.

E dirá que está pronto para ir embora, seja para onde seu imaginário embriagado pelas ilusões o conduza. Poderá admitir-se realizado, tendo atingido o mais alto degrau de sua plenitude existencial. É, no entanto, incapaz de perceber que os devaneios pendentes sinalizam claramente que ainda é infeliz.

Sendo esse o possível roteiro existencial de todos nós, resta-nos questionar o porquê da inflexibilidade dessa pauta, que atravessa gerações, intocável, como se fosse um fardo obrigatório, ou uma maldição impossível de ser quebrada.

Como podemos ser livres se a simples menção de um objetivo, a realização de um desejo, a simples busca por uma permanente satisfação, ainda são nossos cativeiros? Há espaço para manobras, quando se nasce com tudo já programado? Assim são os nossos objetivos, pensamentos, crenças, emoções, destino; enfim, tudo isso já foi organizado, protocolado e homologado pela tradição da mesologia onde vivemos.

Finalmente, de que servirá ser bem sucedido no fim da vida, quando a espera por dias melhores num idealizado e imaginário paraíso contraria de forma irrefutável esse suposto status de êxito? Eis, objetivamente, o nosso corrente sonho de felicidade, e suposta liberdade. Vale refletir sobre o assunto.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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Sobre a Autora:

[1] Anne Marie Lucille - annemarielucille@yahoo.com.br
Franco-brasileira, pesquisadora na área da Psicopedagogia e Antropóloga. Atua como consultora educacional especializada em Educação Integral e Consciencial.
A autora não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

Mais artigos da autora em: http://www.sitededicas.com.br/holistica_index.htm

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