Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
As Crianças e o Mundo Real
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autor: Jon Talber[1]
Por que será que criamos um mundo de fantasias para nossas crianças, se o mundo que irão herdar, o real, em nada se assemelha a este?
"Quando a realidade é tratada como uma fantasia, na cabeça da criança, a fantasia se torna uma realidade..."
As Crianças e o Mundo Real
A criança tende a assimilar qualquer coisa, mesmo aquilo que não lhe convém...
As Crianças e o Mundo Real
A criança tende a assimilar qualquer coisa, mesmo aquilo que não lhe convém...

Lembrando sempre que criança não aprende senão pela imitação. Que a arte de imitar não se aprende, trata-se de um atributo inato. Não ensinamos uma criança a imitar, mas apenas lhes mostramos o que precisam imitar, ou repetir, o que dá no mesmo.

Imitar é uma coisa tão natural quanto o ato de respirar. É uma função do cérebro, um recurso imprescindível para a sobrevivência do ente que ora adentra no novo mundo. Sim, é isso mesmo, o mundo parece uma coisa Nova para a criança, uma vez que em sua mente nenhuma experiência do viver existe.

Ela não sabe o que significa mãe, ou pai, ou irmão, ganância ou religião. Ou seja, não sabe o significado de nada que exista à sua volta. Não sabe o que é desafeto ou afeto, medo ou coragem, antipatia ou simpatia, raiva ou compreensão. Não sabe o que é sentimento, nem desejo. E como nada conhece da vida, sequer sabe o que é estar vivo.

Mas, para quem já está no mundo, e dele já é parte integrante e atuante, quer dizer nós os adultos, tudo isso já é coisa conhecida. Somos inquilinos mais antigos, e agora, somos replicadores dos mesmos procedimentos que antes foram usados para nos informar como as coisas desse mundo supostamente funcionavam. Para essa “nova” criança, o necessário agora é apenas se adaptar às regras que já tornam a sociedade um lugar, digamos, finalizado, já pronto para abrigar os novos moradores. E como estamos falando de comportamento e personalidade, tudo isso se refere ao condicionamento psicológico de cada um.

E nesse mundo tão bem conhecido por todos nós, para uma criança que acaba de chegar, tudo de que ela irá precisar para nele se integrar já existe. Ali já estão estabelecidos suas futuras preferências, suas opiniões, suas crenças, suas frustrações, seus ideais, seus sentimentos, seus medos, seus vícios, sua forma de pensar. De sua parte não precisará ter trabalho algum. Sua mente ora vazia, logo será preenchida, como se fora uma folha de papel em branco, que agora se reproduz numa copiadora, recebendo a imagem de um imenso gabarito com os procedimentos operacionais e protocolos já gravados na matriz.

O resto é adaptação, conformação, treinamento intensivo, para que se torne um hábil imitador, um mímico dos comportamentos já adotados pelos outros. Não existirá, portanto, um comportamento novo, mas apenas um novo “ser”, que ao seu temperamento inato irá agregar as antigas condutas, todas já atestadas e aprovadas para uso pela mesologia onde nasceu ou vive.

E como regra, há um mundo especial construído apenas para as crianças. Este, intencionalmente é separado do mundo dos adultos. Ali não se fala de problemas, ou doenças, ou de coisas desagradáveis. Mesmo os personagens são surreais, criados pela fantasia dos adultos. Não se trata de um mundo infantil, mas de um bizarro mundo adulto idealizado supostamente para servir de acolhimento às crianças. Não foi feito para crianças, ou mesmo para suprir suas necessidades, mas para que os adultos pudessem colocar suas crianças dentro dele, com a intenção de condicioná-las, domesticá-las conforme padrões e protocolos já estabelecidos.

Não é um mundo de novas descobertas, mas de novas e grandes ilusões, especialmente projetado para os novos inquilinos. Ali as coisas são irreais, completamente diferentes dos fatos. A criança sorri e recebe presentes. Lá a criança tende a ser mimada todo o tempo, como se isso fosse prática comum no mundo real. Por isso mesmo, inevitavelmente, à medida que cresce, entrará em conflito. Ficará frustrada, angustiada, tão logo receba os desagravos pelos caminhos da vida, isto sim, a prática comum, aquilo que de fato existe no mundo de verdade.

Como tudo lhe foi ocultado, passará grande parte de sua vida, da juventude em diante, tentando superar os dramas pessoais, e outro tanto, tentando se adaptar a essa “nova” realidade, absolutamente diferente daquela extraordinária utopia que lhe foi apresentada desde a primeira infância.

O que são conflitos senão uma visão antagônica de qualquer aspecto da vida? Aprendemos, tomamos conhecimento de uma coisa, que pode ser uma ideia ou um comportamento, e após nos identificarmos com aquela condição, logo nos confrontamos com outra que diverge da nossa. Como fomos orientados a receber, conviver, com tais contradições, isso é o que fará toda diferença na trilha da vida. Ocorre que, sobre esses conflitos, antagonismos e imprevistos, o que deveria ser um processo essencial para a criação de uma mente flexível, item fundamental para uma adaptabilidade sadia durante nossa jornada cognitiva, quase nenhuma orientação iremos receber.

E o Mundo real versus mundo ideal, será para sempre, na mente do jovem ou adulto, antes uma criança mergulhada num mundo de ilusões, uma fantasia que jamais poderá ser alcançada, nem erradicada por completo dos seus sonhos. Nós criamos esse paradoxo no momento em que, na sua infância, lhe apresentamos um universo paralelo, repleto de sorrisos e maravilhas, uma condição que nunca existiu de fato no conturbado e complexo modo de viver do homem.

Cuidar de uma criança com carinho é uma coisa, inventar uma realidade como forma de carinho é acima de tudo uma maldade, ignorância, falta de respeito, e por que não, uma mentira. Zelo, cuidado e boa condução são requisitos necessários dentro do mundo real, não em um de faz de contas. Precisamos ensinar ética e respeito justamente porque isso pouco existe lá fora, longe do nosso lar, da segurança dos nossos braços, e nunca apenas para realçar um mundo de mentira, um mundo especialmente criado para esconder das crianças a fria, mas concreta, realidade.

Mas, sendo prática comum e inevitável tal procedimento, resta-nos a questão: “Por que, a despeito de incontáveis gerações, ainda, nossos jovens e adultos não lograram êxito ao lidar com seus medos, frustrações e as angústias pessoais mais simples? Não terá tudo isso, como causa e efeito, o conflito que existe entre a criança que vivia numa maravilhosa fantasia e aquela que de repente se vê obrigada a viver numa realidade absolutamente adversa e bizarra?”

Atribuir culpa ao mundo pelas suas distorções não é a solução. Entretanto, individualmente, é possível perceber de forma inequívoca que, mesmo não sendo os autores de tais anomalias e deformações, como agentes replicadores de costumes e tradições, sem dúvida, ajudamos no processo de consolidação desse Status Quo.

E quanto tempo mais isso irá durar, isso vai depender da nossa vontade e pioneirismo; da nossa firme convicção de que algo precisa ser feito. Ou então, devemos simplesmente nos acomodar, escorados em nossas crenças infantis, como até agora o temos feito. E assim iremos permanecer à espera de um milagre, do toque de uma varinha de condão, que virá dos céus para tudo transformar com sua magia, atendendo finalmente às nossas reivindicações, sonhos e aspirações, por mais estúpidos, incongruentes e absurdos que sejam.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Jon Talber - jontalber@gmail.com
É Pedagogo, Antropólogo e escritor especializado em Educação Integral e Consciencial. Estudou por mais de 30 anos as filosofias orientais e o comportamento das muitas culturas do mundo, seus sistemas educativos, doutrinas, dogmas, mitos, etc. Torna-se mais um colaborador fixo do nosso Site, onde pretende compartilhar parte daquilo que aprendeu ao longo de sua jornada.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

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