Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
As Crianças e o Mito dos Contos de Fadas
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autores: Anne Marie Lucille e Ester de Cartago[1]
Descobrir por que ainda tratamos nossas crianças como brinquedos é um mistério; erradicar esse costume milenar e patológico de nossas vidas, um desafio...
“Urgente seria descobrirmos, em nós mesmos, de forma clara, objetiva, quais são os nossos atuais problemas, e depois ensinarmos a nossos filhos como viver sem eles, e nunca como viver com eles..."
As Crianças e o Mito dos Contos de Fadas
O Respeito começa quando consideramos que nossas crianças são capazes de acertar onde falhamos...
As Crianças e o Mito dos Contos de Fadas
O Respeito começa quando consideramos que nossas crianças são capazes de acertar onde falhamos...

Por que o mundo das crianças está situado numa espécie de reino, o mais distante possível da nossa realidade, um espaço repleto de fantasias, de coisas fáceis, de pessoas gentis, onde o bizarro é coisa inexistente, onde os problemas e dilemas humanos não são sequer mencionados, isso, não temos como saber.

Mas, sabemos que é assim. É a prática comum desde incontáveis gerações. É a conduta aceita e autenticada, homologada pela pedagogia de todas as nações; pelos especialistas em educação, pelos cientistas sociais e apóstolos doutrinários.

E, naquele mundo, onde não existem doenças ou anomalias sociais, todo mal é tratado como um vilão que atua de fora para dentro do indivíduo, como se fosse uma entidade assediadora desagregada deste. E ali, os antagonismos são retratados dentro de uma esfera romântica, e poderão ser resolvidos pela evocação de um super-herói ou divindade mágica, que está sempre de plantão para socorrer o protagonista.

Trata-se de um mundo utópico, virtual, onde os sonhos se concretizam, onde apenas as coisas que dão certo são dignas de referência; onde o mal é retratado como uma palavra vulgar, sem um exemplo capaz de ilustrar o que significa. É um epicentro onde a realidade é totalmente deixada de lado, onde o idealismo e a fantasia dos chamados contos de fadas predomina.

Os contos de fadas, como nós os conhecemos, ganharam status na idade média, na mesma época da repressão religiosa, das injustiças sociais praticadas pelos déspotas governantes. Embora não se saiba sua origem, naquela época, tomaram a forma que chega aos nossos dias.

E tudo isso graças aos devaneios de alguns escritores, que para entreter um público carente de sonhos, gente que vivia sufocada, encarcerada, esmagada pela opressão dos costumes daqueles tempos, e que por isso mesmo desconhecia por completo o conceito da luz no fim do túnel. Sempre foi, na verdade, uma deliberada concepção surreal, uma fuga à realidade, que logo, no imaginário de cada um, se tornaria tão real quanto o são as coisas concretas.

E eis a base de toda educação no hemisfério ocidental, embora no oriente não seja tão diferente. E no papel de crianças e à revelia da nossa vontade iremos absorver essa tradição. Vivemos em um mundo de constantes desafios, imersos em disputas e conflitos sem fim, onde os problemas e as múltiplas atividades do nosso dia a dia preenchem todas as nossas horas de vigília. E, afinal de contas, o que existe de concreto para nós como objetivo de vida?

A verdade é que não estamos no controle da situação, as circunstâncias sim. Somos regidos na íntegra, não pela imposição de nossa vontade ou querer, mas pela necessidade constante de solucionar problemas. Resolver problemas, grandes ou pequenos, este é o nosso atual objetivo de vida. Não criamos nada disso, tudo foi concebido muito antes de nossa existência.

Se ensino para meu filho que existe um mundo imaginário – para ele isso é coisa real – onde todos são capazes de, pela simples vontade, viver qualquer tipo de sonho possível de ser criado pelo pensamento, qual a minha expectativa em relação ao modo como irão reagir mais tarde, quando, sufocados pela competição e realidade da vida, descobrirem que tudo aquilo era apenas uma grande ilusão, uma incompreensível e pavorosa mentira criada para distrair bobos?

Por incrível que pareça, irão replicar a mesma ladainha para seus filhos. O problema é que, como adultos, dentro do seu imaginário mais profundo, aquele ideário, mesmo que agora pareça um devaneio patológico, ainda permanece vivo. E nesse momento será substituído pela força de suas crenças pessoais, especialmente aquelas de cunho religioso, cuja proposta é assegurar, de fato, a existência daquele mundo repleto de coisas maravilhosas e indescritíveis júbilos, que foi criado especialmente para serví-los, mesmo que depois de mortos.

Ocorre que nossas crianças, depois de crescidas, irão enfrentar problemas concretos, problemas sérios que ainda não conseguimos erradicar, e conhecê-los desde cedo, talvez fosse o caminho mais lógico e capaz de capacitá-las para essa trágica realidade. Cientes do fato desde cedo, poderiam decidir pela continuidade ou não desse caos, já que nós mesmos nunca paramos para fazer essa escolha.

Ensinar para a vida começa através do competente e edificante esclarecimento, quando já são capazes de uma compreensão mínima, quando o significado do viver é colocado sobre a mesa. E isso inclui mostrar suas facetas, seus conflitos, as distorções ainda pendentes de soluções; o imenso e complexo problema no qual se tornou a aventura existencial do homem.

Para que uma criança seja capaz de resolver seus conflitos, que são os nossos atuais, desde o princípio, precisarão aprender a conviver com eles. Tanto os conflitos quanto suas causas, tudo isso são coisas que deveriam aprender conosco, na segurança da nossa companhia, proteção e carinho. E também os aspectos bizarros, os ingredientes ativos de nossa realidade, tais como o ódio, a idolatria, fanatismo; ou coisas edificantes como a empatia e tolerância.

Se ignorarmos tudo isso, se deixamos passar essa oportunidade, onde elas irão buscar esse esclarecimento? Entrarão no mundo como um indivíduo que entra na mata sem repelente apenas por ignorar a existência de mosquitos, desavisadas, vulneráveis, suscetíveis de passar pelas mesmas dificuldades e aflições que também um dia passamos. E o mais importante, qual será a qualidade da fonte que se encarregará de preencher suas cabeças com alguma cognição? Veja bem, atualmente, o homem vive encarcerado numa cadeia de conflitos aparentemente sem solução exatamente porque um dia, seus antecessores, confiaram a terceiros a tarefa desse esclarecimento.

Educar não seria ensinar como sair dessa complexa confusão que, embora não seja de nossa autoria, atuamos como fiéis multiplicadores? Será que somos capazes de viver sem conflitos e sem medos? Teremos, de fato, tal potencial?

Se temos esse potencial ainda não fomos capazes de colocá-lo em prática. Se não somos capazes de mudar nada, de que forma essa transformação irá ocorrer no mundo dos nossos filhos, uma vez que, sem direito a escolha, eles herdarão nossa atual mentalidade patológica, inclusive nossa incontestável incompetência em resolver os mais triviais conflitos existentes nos interrelacionamentos?

Se eles precisam de ajuda, acreditamos que nós precisamos ainda mais. Precisamos acordar. Precisamos parar de sonhar, de acreditar que as fadas virão do seu reino, numa missão especial, com o único objetivo de transformar, com seu encantamento, varinha de condão e tudo mais, todo desarranjo criado por nós. Se acordarmos temos chance de mudar. Despertos, temos a chance de ensinar-lhes a construir a partir do nosso exemplo, a partir do alicerce que iremos deixar para eles.

As crianças precisam conhecer um pouco sobre a vida que terão pela frente. Precisam conhecer as pessoas, seus pontos fracos, suas possíveis falhas e limites. Precisam saber que suas mães, periodicamente, quando sofrem bruscas mudanças em seu estado humoral, estão a passar por processos orgânicos naturais, que a moderna ciência chamou de Tensão Pré-menstrual.

Isso decerto evitaria inúmeros conflitos internos com seus filhos, que por não compreenderem a brusca mudança de comportamento da pobre matriarca, logo tiram conclusões equivocadas. E na maioria das vezes irão considerar aquele estado de impaciência como rejeição pessoal, o que tende a afetar todo equilíbrio e harmonia do grupo familiar.

As crianças precisam saber desde cedo o que significa ficar velho, afinal de contas, com sorte, no futuro, a maioria delas também terão que passar pela mesma condição. Sendo a velhice um processo natural e fisiológico, involuntário e irreversível, elas não poderão escolher e mudar seus destinos. Então, por que esse processo nós escondemos delas como se fora coisa inexistente ou uma espécie de entidade maligna?

Não seria uma forma lógica e inteligente de criar entre jovens e idosos um maior vínculo de empatia e respeito? Isso decerto iria motivar uma maior aproximação entre as diferentes faixas etárias, contrariando a óbvia indiferença dos mais jovens em relação à velhice, que atualmente é a regra em nossa civilização. E o mais importante, também seria uma forma de alerta para o inevitável estágio etário que aguarda a maioria desses jovens.

Educar para a vida contempla o lado teórico seguido do imprescindível exemplo prático. É o teatro da vida, onde o conceito se transforma em conteúdo, quando pode ser experienciado. Para que isso ocorra, o princípio da dúvida deve ser cultivado e depois introduzido na grade do repertório cognitivo de cada um, na pauta pedagógica, e tudo isso desde as primeiras séries.

Lembrem-se, a lavagem cerebral do mundo, com suas distorções e absurdos, começa cada vez mais cedo. Se nossos filhos não tiverem uma predisposição natural ao questionamento, se os pontos positivos dos seus temperamentos não são cultivados e potencializados, se não estão livres para duvidar, investigar e mudar, então, o destino de todos já está selado.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Ester Cartago - estercartago@gmail.com
É Psico-orientadora especializada em educação Integral e Consciencial, Antropóloga, pesquisadora de Fobias Sociais e também escritora. Torna-se agora mais uma colaboradora fixa do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

[1] Anne Marie Lucille - annemarielucille@yahoo.com.br
Franco-brasileira, pesquisadora na área da Psicopedagogia e Antropóloga. Atua como consultora educacional especializada em Educação Integral e Consciencial.
A autora não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

Mais artigos do autor em: http://www.sitededicas.com.br/holistica_index.htm

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