Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
O Despertar da Autoconfiança
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autora: Ester de Cartago[1]
Aprender sobre si mesmo enquanto ensina revela toda madureza daquele indivíduo que ora exerce o papel de pai ou educador...
"Autolucidez não é uma qualidade que se adquire ao longo da jornada, mas, ao invés disso, no início, quando percebemos que não a temos..."
O Despertar da Autoconfiança
Procurar entender a si mesmo através de outros, se equipara ao indivíduo que espera iluminar uma gruta escura com uma lanterna sem bateria...
O Despertar da Autoconfiança
Procurar entender a si mesmo através de outros, se equipara ao indivíduo que espera iluminar uma gruta escura com uma lanterna sem bateria...

Observe uma criança ao nascer, movida pelo instinto, motivada existencialmente por apenas duas condições: alimentar-se para sobreviver e ser capaz de manter-se viva. Isso inclui saber chorar quando sente fome ou desconforto; isso inclui descansar depois de cuidada pelos adultos seus regentes, de modo que, naturalmente, sua fisiologia se desenvolva, amadureça. Isso inclui todo processo involuntário que cuida de sua fisiologia, longe dos nossos olhos e opiniões.

Dotada de um cérebro, este naturalmente tende a se desenvolver, cumprir seu papel. Dentre eles, o de pensar de forma lógica. A lógica cerebral se baseia numa coisa bastante simples, e esta é: É coisa “necessária à sobrevivência”, serve e será gravada na memória como coisa boa; não é coisa necessária à sobrevivência, também será gravada, mas, como coisa má ou desnecessária. Vale frisar que, à medida que aumenta a idade, o conceito de mau ou bom passa a ser classificado como aquilo que proporciona ou não satisfação, um bem estar consciente.

Com a introdução do nosso modo de pensar dentro da mente infantil, onde esta passará a se comportar assim como nós já nos comportamos, seguindo diversos protocolos operacionais, essas regras iniciais são quebradas. A partir de agora, aquela lei primária que regia seu cérebro primitivo, foi revogada. Foi substituída por várias outras leis, as nossas leis e gabaritos, nossos próprios motivos e objetivos existenciais, criados muito antes de nós, pelos nossos antecessores, e aqueles que existiram antes destes. Estarão elas agora sob domínio das antigas tradições, sob o jugo da mesologia.

O medo primário de não ser capaz de conseguir alimento, este é o gatilho que faz a criança chorar. É coisa inata, isso não aprendemos com nossos pais. A mesma regra vale para a sensação de desconforto, ou dor. Assim, o medo de não ser capaz de sobreviver, este é o ponto principal sob o qual se apóia a existência humana. É instinto, é coisa genética, involuntária, parte integrante da estrutura celular, orgânica, de cada ser vivo. É coisa absolutamente natural. Podemos chamar a isso de prudência existencial, e, claro, não foi criado por nós.

Uma criança, conscientemente, não teme morrer. Ela, aliás, não teme nada, pois ainda não pensa. Por não pensar, não está apta a deduzir de modo lógico o que é sequer uma necessidade, e assim seu corpo age de forma espontânea, movido pelo instinto, temperamento, idiossincrasias, sem depender de sua vontade deliberada, consciente, planejada, organizada.

O medo de não conseguir passar de ano, este é coisa pensada, este é artificial. Mas ativa o mesmo mecanismo de medo involuntário usado primariamente como artifício para a sobrevivência do animal que somos. Se antes o mecanismo de alarme, ou medo, era ativado por um motivo justo, coerente, pois se tratava da autopreservação, agora ele é ativado de forma artificial, por uma razão que não significa necessariamente a manutenção da integridade somática daquele ente. Trata-se da sobrevivência psicológica do Ego, uma entidade virtual que tenta se fixar como concreta.

Nosso pensamento criou suas próprias regras e motivos existenciais, e acaba por confundir, ativando e desativando, à sua vontade, nosso mecanismo primário de medo. E somaticamente, nosso corpo emocional reage a isso. E há a ansiedade, o stress, o pavor, a sensação real de insegurança, o temor de que existe um risco iminente; uma situação de grave perigo em andamento.

E tudo isso é criação do pensamento lógico; trata-se de medos inexistentes, necessidades artificiais, coisas não vitais. O medo autêntico se ativa diante de situações capitais, onde a integridade física do indivíduo esteja sob risco. E há o estresse, a ansiedade, e tudo isso são realces, partes integrantes do medo, aquele genuíno, e significa prudência. E há o medo sem justificativa, e este nós criamos. Este é irracional, imprudente, não existe de fato, mas, raramente somos capazes de separar uma coisa da outra.

Ao nos aproximarmos da borda de um abismo, e sabendo que aquilo é perigoso, racionalmente, tendemos a nos manter a uma distância segura. Isso não é medo, é prudência, autopreservação. Isso, na maioria das vezes, não causa ansiedade, nem estresse. Observe agora o que ocorre quando há o desejo de se alcançar um objetivo, algo que nos proporcione satisfação. E a simples menção de que não iremos conseguir já nos causa ansiedade, estresse, que são os sintomas do medo, que deveriam surgir apenas diante de uma ameaça iminente, real, à nossa vida.

Como educadores e pais, conhecedores desse mecanismo, cumpre-nos estudá-lo em nós mesmos, para depois tentar ajudar nossos filhos e alunos, com os devidos esclarecimentos.

Um fato resiste a qualquer refutação. Assim, ao comprovar através de uma autoanálise perseverante, disciplinada, organizada, que a falta de confiança em si mesmo é um medo inexistente, isto é, que se trata apenas de uma forma de medo criada pelo nosso pensamento, sem os motivos lógicos que o justifiquem, isso nos ajudará a separar aquilo que é coisa genuína, concreta, das fantasias, delírios ou devaneios mentais.

A maioria dos nossos medos são fantasias, dramatizações, causas injustificadas. O medo de falar em público, de sair às ruas, todos estes são baseados em deduções, abstrações, estereótipos, ideias de acontecimentos futuros, ou experiências do passado. É o medo das supostas consequências, dos prováveis malefícios, dos efeitos nocivos, caso fossem reais. Mas as causas, embora irreais, têm o poder de criar ansiedade, preocupação, inquietação. Nossa mente é capaz de criá-las, mas tem imensa dificuldade em removê-las depois de criadas.

Dúvida, esse deveria ser o nosso antídoto. Trata-se de uma prática, de uma lógica simples: não existe ou existe. Nosso processo inquisitório deveria começar nesse ponto. A coisa existe, é uma ameaça real, um fato, algo que se aproxima de nós, presentemente, diante dos nossos olhos, pondo em risco nossa integridade física, ou, ao invés disso, trata-se apenas de uma ideia, uma abstração, um simples capricho doentio criado pelo nosso pensamento patológico?

Observe o medo de falar em público. Por que a maioria dos jovens, e mesmo os adultos se apavoram diante da situação? É coisa capaz de causar danos físicos a aquele indivíduo, de por em risco sua vida? Isso justificaria o medo, se o fosse, mas não é. No entanto, a coisa existe, criando ansiedade, fazendo a garganta ficar seca e a adrenalina se espalhar pelo corpo, criando uma tensão inexistente.

É a força do pensamento em ação, somatizando uma sensação de perigo; simulando virtualmente uma realidade que não existe de fato. Trata-se de uma abstração patológica, uma alucinação, uma anomalia nas cadeias lógicas do cérebro, o que acaba por dar vida ao que não é real. E o pensamento sufoca a razão, toma-lhe o controle, diz que é coisa verdadeira, e o corpo reage como se assim de fato o fosse. Surge então o medo com todas as suas consequências e desdobramentos.

Claro que para falar em público precisamos nos preparar; seria insensato e estúpido adentrar em um palco diante de um público sem motivo, sem qualificação, apenas para fazer o papel de um inconveniente palhaço. Isso poderia nos causar constrangimentos, embaraços, e nesse caso, seriam de fato motivos para o afloramento dos medos psicológicos.

O princípio da dúvida é a chave para superação de todas essas coisas. Através dele podemos então investigar para descobrir em nós o que tememos. Por que tememos as consequências, quais seriam seus possíveis efeitos? Se estiver disposto a explorar, fazendo uso de si mesmo como uma cobaia viva nesse processo investigativo, de forma imparcial, sincero, onde nada será deixado de fora, é quase certo que o problema da insegurança pessoal deixe de existir.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.

Nota de Copyright ©
Proibida a reprodução para fins comerciais sem a autorização expressa do autor ou site.

[1] Ester Cartago - estercartago@gmail.com
É Psico-orientadora especializada em educação Integral e Consciencial, Antropóloga, pesquisadora de Fobias Sociais e também escritora. Torna-se agora mais uma colaboradora fixa do nosso site.
A autora não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

Mais artigos da autora em: http://www.sitededicas.com.br/holistica_index.htm

Mais Sugestões de Leitura