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Contos Reflexivos - A Evolução
Editoria de Literatura - 26 de Outubro de 2015
Autor: Alberto J. Grimm[1]
Quando a realidade humana não passar de um evento virtual sob demanda, será impossível descobrir se existe alguma coisa real lá fora, caso exista um lado de fora...
“Uma fantasia ou mito, de tanto se repetir, psicologicamente, acabará por se tornar coisa concreta dentro de cada mente..."
A Evolução
Não podemos mensurar o valor de uma coisa, se a esta já se atribui um valor...
A Evolução
Não podemos mensurar o valor de uma coisa, se a esta já se atribui um valor...

Naquele dia, um pouco antes do amanhecer artificial, ele percebeu que havia alguma coisa estranha; estranha por não ser capaz de compreender sozinho. Mas, tinha certeza, de que um algo mais estava presente no ambiente. Abriu a janela virtual do seu quarto, olhou para o lado de fora e viu que a definição da imagem da rua não estava muito clara. As cores estavam um pouco esmaecidas, embaçadas, desfocadas e instáveis, e em alguns pontos quase opacas. Fechou a janela virtual e virtualmente sentou em sua cama tentando pensar um pouco.

Como não conseguia pensar sozinho, resolveu acessar um banco de memórias remoto para ver se lá já existia alguma ideia pronta que servisse de base para o pensamento que, por si só, não era capaz de elaborar naquele momento. Não se tratava de uma pesquisa simples, pois sequer sabia o que procurar. Mas, de fato, algo estranho estava acontecendo, pois o banco de memórias estava inacessível.

Por alguma razão desconhecida, o servidor de cérebros virtuais estava fora do ar. Ficou desesperado, pois acabara de dar-se conta de que era incapaz de pensar, que dependia completamente da mentalidade virtual que pegava emprestado da Central de Pensamentos. Percebeu naquela hora, que sua vida psicológica e emocional dependia inteiramente de um servidor, um computador remoto, de uma simples máquina, que sequer sabia onde estava.

Olhou à sua volta, no ambiente virtual onde se encontrava, e percebeu que o cenário construído de acordo com suas preferências, começara e se desfazer, dando espaço para que uma cena padrão ficasse em seu lugar. Aquilo era um sinal claro de que alguma anomalia estava acontecendo no Centro de Controle de Mentes. Viu que o amanhecer artificial mostrava-se instável, mais parecendo uma tarde, um indício claro de que todo sistema passava por problemas.

Acomodou-se melhor em sua cama virtual, tentando pensar em alguma coisa sozinho. Mas era dependente demais, jamais pensara sozinho antes, não sabia como fazer, não sabia como pensar. Naqueles tempos, era mais prático e comum, pegar um pensamento já pronto, afinal de contas, existiam tantos, até se podia escolher por tipo.

Na escola, todos recebiam links com os endereços dos pensamentos que poderiam usar nas diversas situações do dia a dia, e desse modo, era só copiar e colar, não precisava pensar, nem desligar a máquina de simulação de mundo virtual que já recebiam como implantes em seus cérebros, desde o nascimento.

Lembrou de um dia quando a bateria que mantinha o mundo virtual permanentemente ligado, deu pane. Felizmente fora um problema passageiro, que não durou mais que um segundo, mas a visão de realidade que tivera fora horrível. Viu-se de repente num imenso recinto fechado, dividido em incontáveis andares, sem janelas, com uma aparência horrível, que não conseguia compreender, e ao seu lado, dezenas de outros iguais a ele, imóveis, como zumbis estáticos. Felizmente o sistema voltou a funcionar logo, como num piscar de olhos, e tudo aparentemente não passara de um breve sonho, ou pesadelo, para ser mais preciso.

Mas agora, o servidor do mundo virtual onde vivia, estava com problemas operacionais, e um novo padrão de mundo estava se sobrepondo ao modelo onde já estava acostumado a viver. Se no outro sempre acordava com um dia ensolarado, de uma natureza viçosa e exuberante, nesse alternativo, o que se via era uma tarde melancólica, ventos frios, e um tempo fechado e cinzento. E havia outra questão, esta bem mais séria: Ele não sabia pensar, e assim não tinha a menor ideia do que fazer numa situação daquela natureza.

Nesse momento ele escutou uma voz conhecida, era do gerenciador do sistema operacional, conhecido como Avatar ou Guru, e informava: “Atenção a todos os conectados, o sistema nesse momento, apresenta instabilidade temporária, e enquanto realizamos os ajustes necessários, todos viverão durante algumas horas, num mundo virtual alternativo. Logo, um Amparador, um Orientador ou Guia virtual, se apresentará para orientá-los dos procedimentos nesse novo mundo, e esperamos voltar ao normal em alguns minutos, ou horas...”

O seu quarto com janela para um jardim florido à beira mar e brisa perfumada, logo fora substituído por uma paisagem desolada, um entardecer nublado, com pouca luz, o que indicava que o sistema procurava com isso economizar energia. Correu para a cozinha virtual e lá encontrou uma simples mesa com torradas de pão transgênico e chá frio sem açúcar, um cenário muito diferente da exuberante variedade de outros dias, onde quase não existia espaço físico para acomodar tamanha diversidade de alimentos frescos, e orgânicos.

Sua Mente virtual de última geração, com banda ultra-larga de recepção, fora substituída por um modelo simples, com baixa resolução gráfica e conexão discada sem filtro para eliminar ruídos. O padrão para demonstrar desespero ele ainda lembrava claramente, por isso não precisou acessar o banco de pensamentos para simular tal sentimento. Se ao menos soubesse pensar poderia encontrar uma solução alternativa menos traumática; mas, seu cérebro se recusava a fazer isso, estava atrofiado, e por falta de uso, fossilizado, e assim, perdera por completo esse potencial.

Gritou pela sua mãe virtual e esta não respondia. Dirigiu-se ao seu quarto e a porta estava trancada por dentro. Bateu na porta virtual e nem o som do toque na madeira conseguia escutar.

Escreveu num pedaço de papel virtual a frase: “Mãe, você está ai?”, e colocou por baixo da porta. Mas, como a conexão estava lenta a espera parecia uma eternidade. Por fim ela respondeu, foi uma resposta automática, um simples “Positivo!”, uma resposta pré-gravada. “A coisa parece muito séria”, concluiu angustiado.

O que fazer diante de tal caso? E se o sistema perdesse a identidade virtual de cada um dos conectados, ele deixaria de existir, perderia seus amigos virtuais, seu emprego virtual, sua vida pessoal virtual, sua família. Percebeu que já se sentia diferente. Isso estava acontecendo porque, certamente, devido ao problema, o sistema trocara sua personalidade original multidimensional com gráficos hiperrealistas, som polifônico e sensibilidade de última geração, por uma mais simples, básica, “default”.

Era um modelo alternativo, uma mente primária, sem imagens em alta definição, cuja proposta existencial se baseava em princípios religiosos primitivos, onde a prática de orações, requisições de promessas a troco de penitências ou oferendas, eram direcionadas a santos ou entidades mágicas, sempre que um problema se fizesse presente.

Então tudo apagou, e apenas uma música ambiente se podia ouvir, e no fundo escuro do seu quarto virtual, podia enxergar um pequeno ponto verde piscando alternadamente, e foi a última coisa que viu, antes que surgisse uma mensagem luminosa no mesmo ponto, que informava: “Aguarde, sistema operacional sendo reinicializado...”

É o pouco do que ainda consegue lembrar, embora de forma difusa, quase sem resíduos na memória, mas incapaz de diferenciar se fora realmente um fato ou apenas um delírio virtual. Entretanto, estranho mesmo era aquela forte sensação de que esquecera alguma coisa, embora, ao acordar, tudo estivesse aparentemente normal, uma vez que se via em seu quarto habitual, com janela de frente para o mar, brisa perfumada e cântico dos pássaros.

Nesse momento, sua mãe virtual, parecendo confusa, entra no quarto e comenta: “Coisa mais estranha, embora não lembre se estava ou não dormindo, estou com a clara sensação de que acabo de ter um sonho, ou pesadelo... como se algo esquisito tivesse acontecido há pouco tempo atrás, embora não seja capaz de compreender, ou explicar...”

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Alberto Grimm - albertogrimm@gmail.com
Antropólogo, Publicitário e Escritor. Especialista em Psicologia do Trabalho e Relações Humanas. É também pesquisador em Educação Integral e Consciencial. Torna-se agora mais um colaborador fixo do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

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