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Contos Reflexivos - A Lenda da Velha Bruxa
Editoria de Literatura - 26 de Outubro de 2015
Autor: Alberto J. Grimm[1]
Existem mais coisas entre a terra e o céu do que o acervo de explicações contidas nos compêndios e alfarrábios dos pseudo-cientistas e pseudo-sábios ainda movidos à sombra da fossilizada mente medieval que chegaram ao nosso tempo... é bom lembrar sempre disso...
“Com certeza existe uma realidade que está além dos gabaritos e protocolos científicos usados para autenticar qualquer fenônemo que faça parte da existência humana..."
A Lenda da Velha Bruxa
Para se compreender um fenônemo extrafísico, antes, será preciso compreender com mais profundidade a natureza dos eventos físicos...
A Lenda da Velha Bruxa
Para se compreender um fenônemo extrafísico, antes, será preciso compreender com mais profundidade a natureza dos eventos físicos...

A luz intensa da lua cheia, mais parecia a camada transparente de uma espécie de tinta brilhante e aveludada, a se espalhar sobre as copas das árvores daquela mata virgem, e superfícies dos lagos, pequenos e médios, que se podia vislumbrar do ponto mais elevado daquele extraordinário vale, da varanda daquele majestoso casarão, erguido sobre um sólido manto de granito negro.

A visão era deslumbrante, e mesmo o mais insensível dos homens não deixaria de se comover diante daquela verdadeira obra de arte da natureza. E não fosse o vento frio seguido pela densa neblina que aos poucos fora apagando o belíssimo cenário noturno, o reflexivo visitante que, em absoluto silêncio, a tudo aquilo observava, não teria se recolhido antes da meia noite.

No entanto, ele não o fez contrariado, pois sabia que no dia seguinte, o mesmo magnífico quadro estaria à sua espera. Ficaria torcendo apenas para que o nevoeiro chegasse um pouco mais tarde, assim poderia usufruir um pouco mais daquela visão, sempre acompanhada por aquele impagável sentimento de paz interior.

O suntuoso casarão era uma construção antiga, cuja resistência ao tempo constituía um mistério. E o ambiente dos quartos ainda eram os originais de séculos atrás, intocados até em seus arranjos estéticos, quando os audaciosos pioneiros ergueram aquele imponente monumento no alto da colina, certamente com uma dupla intenção: perceber a aproximação de visitantes indesejados, e muito provavelmente, usufruir da paz proporcionada pelo intencional isolamento.

Mas, com o passar dos anos a casa ganhou uma fama, digamos, um tanto quanto excêntrica. Diziam que era mal assombrada. E de tempos em tempos, pelos estreitos e longos corredores dos seus três andares, gritos, gemidos e passos realçados por pisadas fortes, eram absolutamente audíveis, e o pior de tudo, algumas vezes acompanhados pelos respectivos vultos, especialmente em noites coroadas pela lua cheia, como aquela.

Por isso os pesquisadores faziam verdadeiras peregrinações ao local em busca das tais aparições, ora para ilustrar seus compêndios científicos, ora para usar como recheio para livros e revistas pautados no fantástico. Outras vezes o faziam apenas para, simplesmente, tentar compreender os mistérios da vida e da morte. Mas, aquele inquilino não estava ali por nenhum desses motivos.

Sua motivação era outra. Viera a trabalho, no papel de avaliador, representando uma importante organização encarregada de classificar pousadas pelo seu grau de exotismo, o que significava uma atração a mais para as centenas de visitantes, cuja lista de espera para se hospedar no local, se estendia por vários anos. Tanto que existia mesmo um mercado negro apenas para atender aos mais apressados em conhecer a peculiar fama e deslumbramento daquele reservado recanto.

E já recolhido ao seu quarto, percebe que os espessos cobertores de algodão não eram suficientes para proteger do frio, e o motivo era simples: aquela não era uma friagem comum. Já conhecia a explicação oficial, pois todos diziam que os quartos estavam impregnados com ectoplasma, uma substância transparente, invisível aos olhos comuns, que emanava dos espíritos que ali residiam, cuja principal evidência de sua existência, ou presença, era os breves episódios de frio intenso a saturar os cômodos

Mas, a indumentária térmica que já vestia ajudava a contornar o problema, por isso adormeceu sem problemas. Acordou, não sabe quanto tempo depois, com as batidas à porta, mas, ainda a experimentar aquela sensação própria da hipnagogia – estado diferenciado de consciência que surge na transição entre a vigília física e o sono caracterizado pela semiconsciência –, assim, nem parou para refletir sobre as aparições.

Ao abrir a porta não viu ninguém, por isso duvidou que as batidas tivessem sido reais. “Acho que acordei no meio de um sonho...”, sussurrou para si mesmo, e voltou à cama. E logo adormeceu embalado pelo silêncio absoluto. No entanto, sem saber precisar exatamente quanto tempo se passara, sentiu que alguém entrara no quarto, mesmo sem conseguir enxergar quem era.

Ainda desconcertado, de repente, sentiu-se imobilizado, preso à cama, impossibilitado de mexer braços ou pernas, e mesmo a cabeça, embora fosse capaz de movimentar os olhos. E estes vasculhavam até o ponto onde suas órbitas o permitiam, tentando encontrar o intruso que claramente adentrara no recinto. Foi quando percebeu que o estranho visitante sentara sobre o colchão da cama, a altura dos seus pés. Agora podia enxergar com clareza o vulto que estava de costas, e uma sensação de pavor insinuou tomar conta de seu equilíbrio emocional, até aquele momento, ainda sob controle da mais lúcida razão.

Num misto de pavor com sentimento de impotência, tentou em vão falar alguma coisa. Ocorre que de sua garganta nenhum som era capaz de sair, e apesar dos comandos do seu cérebro, seu aparelho fonético parecia entorpecido, emperrado, e simplesmente não obedecia. Então o estranho personagem segurou em um dos seus pés, para em seguida levantar-se e caminhar em direção à cabeceira da cama, colocando-se do seu lado direito, mas, sempre tomando o cuidado de permanecer de costas. Ele pode constatar que se tratava de alguém com um capuz à cabeça, com o resto do corpo coberto por uma espessa manta negra.

Tentou desesperadamente mover-se, mas todo esforço era vão. A cama parecia imantada por uma força opressora sobrenatural que o mantinha absolutamente imóvel. E por mais que tentasse, não conseguia sair daquele torpor. Mentalmente ele gritou o mais alto que podia, quando o estranho personagem, que agora ele sabia tratar-se de uma velha senhora de rosto enrugado, pálido e inexpressivo, subiu sobre sua barriga, para, em seguida, com suas mãos pesadas e tenazes como garras, começar a sufocá-lo.

O pânico atingiu seu momento extremo, foi quando caiu da cama e percebeu que tudo não passara de um sonho; um terrível pesadelo, daqueles que só ouvira falar em contos de assombração, sabe-se lá quando. “Era a velha Bruxa, exatamente como sempre descreveram nas lendas antigas...”, balbuciou para si mesmo, ainda trêmulo, enquanto se erguia do chão e acendia as luzes do quarto.

Certamente que, naquela noite, ele, definitivamente, não conseguiria mais dormir, nem com a ajuda do mais poderoso sedativo.

“Perfeito, pode desligar...”, exclamaram os cientistas encarregados da simulação. “Mais uma vez ele reagiu como gente. Foi capaz de pensar e sonhar, baseado apenas nas memórias que colocamos dentro do seu cérebro virtual. E o mais espantoso é que suas reações de medo motivadas pelo pensamento lógico demonstraram sentimentos verdadeiros, semelhantes aos humanos...”

Aquele era um evento único na história da cibernética. Afinal de contas, tratava-se do primeiro protótipo de computador capaz de pensar e reagir como gente, e o mais extraordinário: fora capaz de sonhar e vivenciar de forma lúcida, com reações mentais e somáticas proporcionais, similares em efeito ao que já sentiam os seres vivos racionais, um feito que até aquele momento, era considerado impossível.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Alberto Grimm - albertogrimm@gmail.com
Antropólogo, Publicitário e Escritor. Especialista em Psicologia do Trabalho e Relações Humanas. É também pesquisador em Educação Integral e Consciencial. Torna-se agora mais um colaborador fixo do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

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