Contos Reflexivos
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Contos Reflexivos - Efeito Colateral
Editoria de Literatura - 26 de Outubro de 2015
Autor: Alberto J. Grimm[1]
Quando a ciência deixa de ter bom senso e esquece o significado da ética, pode ser que os dias dessa civilização estejam contados...
“Se deseja conhecer a verdadeira natureza de alguém, basta lhe outorgar poder absoluto..."
Efeito Colateral
Cometer um erro é relativamente fácil, permanecer nele, mais ainda...
Efeito Colateral
Cometer um erro é relativamente fácil, permanecer nele, mais ainda...

Depois das muitas mudanças na genética de tudo que era dotado de vida sobre a terra, muitas coisas aconteceram. Novas espécies animais surgiram. No principio eram apenas animais feitos “sob encomenda” para entreter as crianças. Sim, a moderna ciência era capaz de criar, por exemplo, um animalzinho novo, como nos joguinhos de computador, onde as crianças misturavam os pedaços, as partes, de diferentes espécimes, para dar origem a algo bizarro, ou engraçado, como diziam.

Agora eles podiam fazer isso com animais de verdade. Era simples, bastava chegar no balcão de uma das lojas credenciadas, e solicitar o animal desejado, por mais estranho e improvável que parecesse. A própria criança podia desenhar o modelo em um dos simuladores disponíveis para isso. Em dois dias estava pronto, já no tamanho desejado, de acordo com as preferências do cliente.

E por um bom tempo, o sonho de consumo entre as crianças, era um modelo que falava e lia contos para elas dormirem. Era a sensação e “Hit” preferido nas maciças campanhas publicitárias que incitavam as crianças a possuírem um. Seus olhos eram de gato, o que era ideal até para ler no escuro. Sua voz era humana, suave, como a voz de um grande orador, ou oradora, ajustada especialmente para os sensíveis ouvidos infantis. Seus dedos aveludados, assim podiam acariciar os pequenos fazendo um temporário papel de mãe, ou babá.

Use sua imaginação e lá estava o animal correspondente. E se espalharam sobre a terra, e se multiplicaram, dando origem a outras tantas espécies exóticas. Para aqueles que não gostavam de animais, mas apenas das suas carnes, era possível criar espécimes apenas para o corte, de acordo com o gosto de cada um. Podia ser com diferentes sabores, ou consistências, ou já temperados, e assim por diante.

E não havia um limite ético estabelecido onde a ciência pudesse afirmar: “Aqui nós paramos. Desse ponto em diante não é possível continuar...” E tudo era feito para servir ao novo homem. Este, aliás, modificado geneticamente, de modo a não padecer mais de nenhuma doença. O que no princípio fora um grande problema para os médicos, e políticos, e todos aqueles, que não mais podiam lucrar ou se promover motivados pelo caos na saúde, ou sofrimento daquele povo. Sem falar no prejuízo que tiveram as grandes corporações farmacêuticas.

Estas, aliás, deram a volta por cima, e agora dominavam o império das mudanças genéticas. Dinheiro, elas ganhavam mais agora do que no tempo das grandes doenças, das pandemias, onde o caos predominava. Mas, alguns saudosistas dos tempos turbulentos se lamentavam: “Bom era antigamente, as grandes pragas, os bajuladores à nossa volta, e as doenças crônicas, quando sabíamos que nossa medicação, além de não curar, criava dependentes ainda mais doentes. Dependentes que eram fiéis, e sempre voltavam espontaneamente às farmácias, e postos de saúde. Nossa, sinto muita saudade daqueles dias...”

E os animais criados geneticamente ganharam inteligência. Sensatez não, afinal eles tiveram como professores os humanos. E mudaram também os insetos, e mesmo os espécimes virais. Mas a história não poderia ter sido escrita de outra forma. Com o aumento da expectativa de vida para um patamar quase infinito, logo todos se perguntavam se o paraíso não seria algo semelhante a aquilo que ora já experimentavam na terra.

Sendo assim, não precisava ninguém se mudar, quer dizer, morrer para desfrutar de tal benesse. Se mudar para quê, se tudo já estava ali? Tudo que se poderia esperar de um paraíso, e ao vivo, literalmente falando, e podendo ser usufruído imediatamente, sem obrigações, sem taxas, sem rituais, sem filiações sectárias ou a intermediação de nenhum ministro religioso, sem esforço ou idolatrias, sem penitências de nenhuma espécie.

E sem objetivos, com uma sobrevida quase interminável pela frente, encontrar coisas para se manter ocupado, se tornara um grande problema para todas as nações. E achar maneiras criativas para preencher um longo e tedioso dia, acaba por se tornar o objetivo existencial daquela humanidade. Por isso tudo era permitido.

E Ninguém mais adoecia, nem precisava tomar remédio, nem se curvar aos deuses para obter cura ou saúde, ou para conseguir bens materiais, afinal, tudo isso já se possuía, de berço, sem obrigação nenhuma a cumprir. E o imenso tédio de se viver centenas de milhares de anos, sem a promessa de um paraíso a lhes esperar em um lugar incerto, e sempre repetindo as mesmas coisas, levou esse homem à insensatez, e da insensatez à total destruição.

Por isso sobraram apenas os escombros das grandes cidades, e as cinzas das grandes florestas, e o deserto de pedregulhos e lama onde antes existiam os mares e as águas límpidas.

Explorando aquele ambiente sabidamente hostil que restara, onde o perigo poderia estar à espreita dos descuidados, o explorador se deteve no alto da colina e observou pacientemente o cenário desolado, misterioso, silencioso, que não exibia o real perigo oculto em suas sombras. Sombras que, como espectros fantasmagóricos de uma alucinação, se erguiam impassíveis, diante de seus olhos atentos.

Ali já fora uma grande e próspera cidade. Milhares de pessoas circulando em suas largas e suntuosas ruas, e o burburinho das lojas, despreocupadas e imersas em seus mundos particulares, indiferentes, a consumirem qualquer coisa, como autômatos programados, até que o dia do “Juízo Final” chegara sem prévio aviso. E apenas os escombros chamuscados em contraste com aquele céu sempre cinzento, sem expressão, era o que agora se via. Quem, dos dias de glória, imaginaria aquele desfecho como ponto de chegada para aquela avançadíssima civilização?

E o explorador conhecia bem toda história. Afinal, seus ancestrais viveram entre aqueles habitantes. Foram concebidos a partir da ciência deles. Lembrou das antigas escrituras, onde o homem dito civilizado, que exaltava sua compaixão para com a vida, desprezava os animais ao tê-los como fonte preferida para sua alimentação. Aliás, essa sempre fora uma questão, que pessoalmente o incomodara por uns tempos. Se aquele homem dizia prezar pela vida, por que desprezava a vida dos demais seres vivos? Lembrou que isso fora o assunto da sua tese de doutorado.

Do ponto de observação onde estava, pode então ver se esgueirando entre as sombras, uma das criaturas híbridas. Era meio homem e meio verme, uma espécie natural, uma evolução do próprio homem bárbaro que restara após a destruição. Como a genética de ambos, verme e homem eram semelhantes, o processo de fusão fora uma coisa espontânea, um processo seletivo natural, de modo a se adaptar ao novo e inóspito ambiente, criado por ele mesmo. Assim surgira o “Homus-rasterus”, uma temível espécie predadora de todos os outros animais.

Tratava-se de um inimigo natural de todos, até de si próprio, por isso todo cuidado com ele era pouco. Mas, a exemplo do seu antecessor, era pouco inteligente. Preocupava-se apenas em caçar, e depois comemorar suas conquistas, sem se preocupar com o dia seguinte. Particularmente, pensava o observador, aquela espécie era uma ameaça ao equilíbrio de qualquer mundo que prezasse pela harmonia. Por isso deveriam ser mapeados para que depois fossem isolados dos demais. E esse, naquele momento, como observador, era a sua missão.

Felizmente, graças às mesmas mudanças genéticas responsáveis por tudo que acontecera, agora a raça predominante naquele mundo era outra. Um novo “ser”. Este, mais respeitador do seu próximo, mais coerente em seus princípios morais. Lembrou que antes do “grande dia”, ele fora um subjugado do poderio e crueldade dos antigos habitantes, os ditos humanos civilizados, servindo apenas como material biológico, cobaia para suas pesquisas. Ele, um simples Rato Branco, agora com maior capacidade intelectual, maior que a dos antigos dominadores.

Com maior estatura, caminhando sobre duas pernas, com braços longos e mãos com polegares opositores plenamente desenvolvidos, sem rabo e com um rosto de aspecto humano juvenil, deixara de rastejar desde tempos imemoriais, Caminho inverso ao que seguiu seu antigo bárbaro dominador.

Sem perder mais tempo, transmitiu à sua base o local que deveria ser considerado de alto risco para os seus, uma vez que a presença do temível “Homus-rasterus”, fora ali detectada.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Alberto Grimm - albertogrimm@gmail.com
Antropólogo, Publicitário e Escritor. Especialista em Psicologia do Trabalho e Relações Humanas. É também pesquisador em Educação Integral e Consciencial. Torna-se agora mais um colaborador fixo do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

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