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Contos Reflexivos - Os Depredadores
Editoria de Literatura - 26 de Outubro de 2015
Autor: Alberto J. Grimm[1]
Parece que o homem moderno se especializou em construir problemas a partir de suas mais criativas aparentes soluções...
“A publicidade não existe para solucionar problemas humanos, mas, antes disso, para criá-los..."
Os Depredadores
Comentário informal de um agente publicitário: “Ora senhores, se o povo soubesse o que quer estaríamos perdidos...”
Os Depredadores
Comentário informal de um agente publicitário: “Ora senhores, se o povo soubesse o que quer estaríamos perdidos...”

A ideia era bastante simples, recolher o lixo e transformá-lo em um produto economicamente viável, uma fonte de lucro. O problema é que aquele não era um lixo comum, tratava-se do lixo do lixo, ou seja, aquele refugo que já foi reciclado muitas vezes, as sobras das sobras, coisa imprestável, aquilo que representava uma ameaça, uma degradação até para o próprio lixo.

E se no início o descarte desse tipo de dejeto, a escória da escória, não parecia uma questão digna de atenção, uma vez que existiam muitas áreas disponíveis para aterro, logo, com a ampliação dos limites urbanos nas grandes cidades, que a cada dia se expandiam mais e mais, estes preciosos espaços foram requisitados a preço de ouro pelos ávidos especuladores imobiliários.

Eram espaços nobres demais, índigos para abrigar o lixo dos lixos, por isso, sem mais aterros disponíveis para acomodar tão indesejável inquilino, uma urgente solução precisava ser criada, afinal de contas, o lixo crescia todos os dias, enquanto que o espaço para abrigá-lo, não. E a população alheia a tudo isso contribuía como podia para agravar o problema, ou seja, gerando mais lixo. Ninguém queria deixar de trocar seus objetos considerados obsoletos, pelo modelo da moda, apenas por causa de um “alienado” movimento ecológico.

“Por que exatamente eu tenho que pagar o pato?”, era a questão que corria de boca em boca. E ninguém queria sequer ouvir falar no pato, muito menos pagar o pato. A indústria do consumo por sua vez, dizia fazer sua parte. “Temos centros de reciclagem para todos os nossos dejetos, e tudo tem um destino certo, tudo certificado...”, afirmavam. E tinha mesmo, o lixão, o mesmo monturo que agora se tornara um problema sem uma aparente solução.

“É uma questão de sobrevivência para a própria indústria. Logo, no ritmo que estamos indo, ninguém vai querer comprar mais nada, simplesmente, porque não terão onde jogar fora os produtos que deveriam ser substituídos. E, talvez, seja até instituída por lei, uma taxa, que será cobrada de cada indivíduo, apenas para que tenha o direito de jogar lixo fora.”, desabafou um dos encarregados de bolar uma saída para o dilema.

E alguém teve a ideia de usar esse refugo para fazer tijolos, os tradicionais, que seriam usados em casas populares patrocinadas pelo governo. Ocorre que, na feitura de cada tijolo, o dobro do lixo reciclado era gerado, o que tornava aquela solução quase um ato terrorista.

E surgiu um novo movimento, o de racionamento do lixo caseiro. Cada cidadão era obrigado por lei, a gerar uma cota diária de lixo, cota esta flutuante, estipulada pela bolsa de valores, que variava de acordo com a disponibilidade de novos espaços naqueles já saturados aterros sanitários. Com uma predisposição inata para criar tanto lixo, logo, um antigo mito, citado nas antigas escrituras, voltou com grande força ao meio social.

Afirmava esse mito dos antigos, que teria o homem se originado como criatura, como ente biológico e racional que era, a partir da costela de uma barata, daí sua compulsão natural para transformar seu planeta num imenso santuário de imundície. Entretanto, não havia um consenso no meio científico, pois alguns estudiosos diziam tratar-se, na verdade, da costela de um rato, o que daria no mesmo, já que ambos têm no lixo sua ideia de paraíso.

Detalhes a parte, o problema persistia e precisava de uma ação imediata e enérgica da parte do estado, da parte de todos, ou o caos assumiria de vez o posto que por tanto tempo afirmara, por direito de herança, merecer ocupar, nos grandes centros urbanos.

“E se colocássemos em caixinhas decoradas, ou coisa semelhante, de vários tamanhos, esse refugo do refugo, em sua forma desidratada, o que não geraria mais lixo, e lançássemos no mercado como um produto revolucionário, que todos deveriam ter?”, sugeriu alguém.

Era uma boa ideia, na verdade excelente, uma vez que, apesar do pequeno volume de cada caixinha, se vendida aos milhares, ou milhões, resolveria de forma criativa o problema. Sem contar que, cada feliz possuidor, sem o saber, faria de sua própria casa um pequeno depósito de lixo, o que seria até uma espécie de vingança do lixo. E ainda, como produto, a depender do marketing e da abordagem publicitária a ser empregada, poderia se tornar um artigo de luxo, de exportação, levando discretamente a bomba oculta para outras e distantes paragens.

Seria fabuloso se a coisa lograsse êxito, pois a indústria teria em mãos a mais revolucionária forma de ganhar dinheiro, cuja matéria prima era abundante, e ainda por cima, lhes pagavam para se livrar dela. Seria a primeira vez na história da economia, que um segmento produtivo ganharia dinheiro para obter a matéria prima, e também ao vender os produtos fabricados a partir desta.

“Senhores o futuro é extraordinariamente promissor. Se a abordagem publicitária vingar, ganharemos rios de dinheiro vendendo o lixo que nem o lixo aceitaria, e ainda faremos com que seus felizes proprietários se sintam realizados com isso. Explorando um pouco mais a ideia, por que não usarmos também para fabricar tijolos decorados, não o modelo tradicional, mas do tipo que nem de pintura adicional irá precisar. Será uma revolução, e um excelente meio de nos livrarmos de ainda mais lixo...”

O projeto estava definido. Uma linha inicial de dois produtos seriam os carros chefes da empreitada. Os Cubinhos da Felicidade, em cujo interior depositariam o lixo prensado, seriam ricamente decorados por fora, com símbolos tradicionais da sorte ou estampas variadas, até ao gosto do freguês. Teriam aparência de coisa sólida. Era um objeto de decoração que deveria ser colocado em prateleiras, estantes, pedestais, sempre à vista, até como símbolo de status, ou apenas indicando que aquela família estava em dia com a moda.

Os Cubinhos seriam hermeticamente fechados, lacrados, invioláveis, inquebráveis, quesitos necessários, um meio necessário para que seu conteúdo nunca fosse descoberto. E isso ajudaria muito aos criadores das campanhas publicitárias na promoção do produto. Por fora brilhantes, polidos, cantos arredondados ou apenas suavizados, alguns com cheiros especiais, de fato, um objeto que logo se tornaria um artigo de luxo, uma evidência de status social.

De tamanhos variados, o protótipo foi disputado quase às tapas pelos próprios idealizadores, e isso já era um claro indício de como seria a aceitação lá fora. Enquanto que os tijolos decorados, ou simplesmente coloridos, seriam apresentados como uma tendência, um conceito revolucionário da nova arquitetura. Chegariam ao mercado em dois tamanhos: Tijolo inteiro e meio tijolo, até porque não dava para quebrá-lo, caso o pedreiro precisasse fazer um ajuste necessário. Deu tão certo que precisaram criar várias fábricas em separado apenas para esse produto.

A abordagem de marketing dos Cubinhos Decorados foi singular. Pessoas famosas mostravam os seus exemplares, e debates foram organizados para explicar o novo fenômeno, e aquilo passou a representar uma espécie de perfil do seu feliz possuidor, uma espécie de símbolo que revelava sua personalidade, seus gostos pessoais, o gabarito de sua posição social. Designers eram especialmente contratados para a criação de modelos exclusivos, coleções limitadas, edições de luxo. E o mercado antes inexistente para os dois produtos, prosperou sem que houvesse registro histórico de fato semelhante.

Cresceu tanto que a matéria prima ameaçou ficar escassa. Os produtores de lixo do lixo já não mais pagavam para se livrar de tão valiosa mercadoria. E a coisa se inverteu. A lei que obrigava os cidadãos a produzirem pouco lixo foi revogada, substituída por outra que agora incentivava a produção.

Com lixo agora valendo tanto dinheiro, degradar como nunca o meio ambiente, se tornara o mais rentável empreendimento da história de todas as civilizações, sendo mesmo considerado pelos governos, um ato de cidadania e atitude patriótica.

Foi quando surgiram as campanhas de incentivo à produção da tal matéria prima, e uma delas dizia assim: “Se agora o lixo é um amigo do homem, por que não transformar o mundo numa enorme lixeira, onde poderemos, enfim, viver, num ambiente digno do nosso status?”

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Alberto Grimm - albertogrimm@gmail.com
Antropólogo, Publicitário e Escritor. Especialista em Psicologia do Trabalho e Relações Humanas. É também pesquisador em Educação Integral e Consciencial. Torna-se agora mais um colaborador fixo do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

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