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Contos Reflexivos - Os Sobreviventes
Editoria de Literatura - 26 de Outubro de 2015
Autor: Alberto J. Grimm[1]
Seria esse o provável desfecho da aventura humana sobre a terra?
“O nosso maior inimigo é o medo apenas por que temos medo de enfrentá-lo sem medo..."
Os Sobreviventes
Não é o valor do ouro que atrai o homem, mas o valor que esse homem passa a ter quando o possui...
Os Sobreviventes
Não é o valor do ouro que atrai o homem, mas o valor que esse homem passa a ter quando o possui...

Do ponto onde se encontrava, ele podia ver quase toda cidade, ou o que restara dela. Não sobrara muita coisa, apenas alguns esqueletos do que um dia fora os mais altos e sólidos arranha-céus daquela nação. O resto era apenas uma massa uniforme de entulhos, onde era impossível encontrar alguma coisa, que permitisse identificar qual teria sido sua forma original. O espesso manto negro que cobria o céu, ainda não se dissipara totalmente, mas alguns discretos focos da luz do sol, como se fora pequenas chamas de um amarelo pálido, já podiam ser vistos em dois ou três pontos por trás das nuvens. Eram poucos, apenas cinco pontinhos haviam sido mapeados em todo o planeta, sem mudança alguma nos últimos 1500 anos. Mas já representava um progresso importante, perto dos 80.000 anos de escuridão quase total de antes.

Naquele mundo quase sem cor, pouca coisa havia para se observar. As plantas eram mirradas, e aquelas consideradas gigantes, não mediam mais que dois palmos de altura. Suas folhas agora possuíam uma cor acinzentada, e as árvores frutíferas, além de produzirem poucos frutos, dois ou três por safra, só produziam variedades envenenadas. O ar também se tornara excessivamente tóxico, e uma neblina permanente tornava a visão de qualquer um, eficaz apenas para curtas distâncias. Para médias ou longas distâncias, todos se contentavam em apenas contemplar silhuetas difusas se esgueirando por dentre a névoa, ou nem isso.

Com o tempo, as gerações sobreviventes desenvolveram a capacidade de se adaptar a tais condições ambientais, assim como a de enxergar na escuridão quase absoluta. Graças a esse atributo, ele podia ver a cidade do ponto onde agora se encontrava. Não estava sozinho, dois amigos o acompanhavam. Aquele perímetro por muito tempo ficara de quarentena, e só nos últimos cinco anos, as autoridades haviam permitido aos sobreviventes, pouco a pouco, a retornarem para tentar recolonizar o lugar. Como ainda era uma situação incerta, o governo criara incentivos especiais para aqueles que desejassem estabelecer fixar residência no local. Cada um receberia um bônus alimentação, suporte à moradia, e um emprego vitalício, onde teria garantido por toda vida, um cargo de supervisor especial da secretaria do meio ambiente.

O trabalho de cada um deles era simples. Deveriam se estabelecer no local, e ao mesmo tempo explorar as regiões mais próximas, efetuando medições dos níveis de poluição ambiental ainda existente. Feito isso, deveriam manter informadas as autoridades, através de relatórios mensais. Para tornar a tarefa possível, cada supervisor receberia um medidor portátil, que seria usado para coleta, análise e posterior compilação dos dados, que seriam transformados nos relatórios.

O treinamento necessário para se tornar um supervisor, incluía lições de sobrevivência a ambientes de extremo risco. Assim, aquele pequeno grupo, na verdade representava uma força de elite dentre os sobreviventes. Esse cuidado excessivo tinha uma razão de ser. Aquela não era uma cidade comum, já fora um local temido por todos antes da destruição, uma verdadeira lenda viva do pavor; o argumento preferido das mães para assustar filhos pequenos desobedientes.

Como cenário das lendas mais temíveis, diziam que monstros de caudas longas comedores de crianças, eram seus habitantes mais amistosos. Eles próprios lembravam claramente quantas noites ficaram sem dormir, pois suas mães diziam que crianças que cometessem alguma traquinagem, ao dormirem, seriam levadas para lá. Desse modo, sabiam agora o motivo das lendas criadas sobre aquele lugar. Havia de fato uma zona proibida, da qual ninguém, sob nenhuma justificativa, deveria se aproximar, e esse era o motivo.

Eles agora conheciam o motivo, pois nas primeiras tentativas de repovoar a cidade, dezenas de grupos haviam desaparecido misteriosamente naquela localidade. Só depois de muita pesquisa, de consulta a antigos mapas da região, é que haviam descoberto a causa. Para as centenas de pioneiros que no passado, disso ainda não sabiam, nada mais poderia ser feito. Mas, para as futuras gerações, havia uma chance, desde que o local fosse devidamente isolado.

Essa também era uma de suas tarefas. Era uma missão secreta, por isso tanto treinamento recebido. Nunca poderiam revelar a mais ninguém o que lá encontrariam, e deveriam assim, definir os limites, até onde os futuros habitantes do lugar teriam permissão de ir. Assim, todo cuidado ao se aproximarem da zona proibida, era pouco. Usavam roupas especiais, e máscaras contra qualquer tipo de toxidade ambiental. De certo modo, não havia outra preocupação em explorar aquela cidade fantasma, pois nenhuma outra forma de vida inteligente conseguira mais se desenvolver diante de tão inóspitas condições, assim não precisariam temer eventuais criaturas inamistosos, ou ameaças predadoras.

Eles eram sem dúvida, a última espécie inteligente sobre o planeta, graças a sua espetacular capacidade de adaptação aos mais extremos desvios climáticos, mesmo depois das dramáticas mutações genéticas que modificara a todos. Bem treinados, prontos para sobreviver ante as mais precárias condições, bem equipados e cautelosos, seu único inimigo era sem dúvida a temida zona proibida e seus segredos.

Por isso mesmo, quando se aproximaram do local, uma grande tensão era evidente em todos. E eis uma visão assustadora, aqueles altos muros de pedra negra, parcialmente destruídos pela erosão da chuva ácida, a esconder em seu interior, o motivo dos maiores pesadelos daquela civilização. Eles podiam ler um nome na fachada do prédio principal, daquilo que um dia já fora uma fábrica, a maior do mundo na fabricação de um produto chamado inseticida.

Era uma visão aterrorizante. Mas eles, como os melhores dentre os melhores da sua espécie, não podiam se deixar levar por antigos temores, afinal de contas, tinham uma importante missão a cumprir. Podiam ler o nome que milagrosamente resistira quase intacto à destruição do prédio. E um deles leu a palavra da fachada em voz alta: “DETEFON”.

E o chefe da equipe engoliu um seco e disse: “O medidor informa que a área ainda é altamente tóxica, para nós, as Baratas. Felizmente estamos com roupas especiais e máscaras herméticas...”

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Alberto Grimm - albertogrimm@gmail.com
Antropólogo, Publicitário e Escritor. Especialista em Psicologia do Trabalho e Relações Humanas. É também pesquisador em Educação Integral e Consciencial. Torna-se agora mais um colaborador fixo do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

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