Contos Reflexivos
Contos Reflexivos
Contos Reflexivos - A Parábola do Problema que era Proibido Resolver
Editoria de Literatura - 26 de Outubro de 2015
Autor: Alberto J. Grimm[1]
Parece que, algumas vezes, a melhor solução para um problema é não ter soluções...
“Se a ganância humana pudesse finalmente diminuir seu ímpeto, uma nova e mais justa civilização seria edificada antes que se completasse uma geração..."
Um Problema Proibido de Resolver
Quando uma corporação com fins lucrativos se empenha em resolver um problema humano, acredite, a solução apresentada contempla o dobro de problemas...
Um Problema Proibido de Resolver
Quando uma corporação com fins lucrativos se empenha em resolver um problema humano, acredite, a solução apresentada contempla o dobro de problemas...

Na tentativa de criar um alimento de natureza orgânica e ainda capaz de permanecer fresco durante um longo período na prateleira dos supermercados, aquele grupo composto por três cientistas, por absoluto acaso, fizeram uma descoberta singular.

Ocorre que, com o aumento da oferta dos alimentos orgânicos, verificou-se que estes estavam mais contaminados com defensivos químicos que as variedades cultivadas ao modo tradicional, aquelas já conhecidas pela sua toxidade.

Isso acontecia porque, os agricultores, tanto os inescrupulosos por vocação quanto os indecentes por oportunismo, de olho gordo naquela fatia de mercado que crescia a olhos vistos, onde os produtos eram ofertados até pelo dobro do preço das variedades tradicionais, resolveram também participar do negócio.

E como não existiam entidades ou laboratórios especializados em classificar ou homologar os vegetais como orgânicos autênticos, bastava colar um selinho qualquer em cima e pronto. E os consumidores eram enganados, e seu lucro estava garantido, não importando a qualidade dos alimentos colocados à venda.

E logo, não mais existiam, pelo menos na fachada, os alimentos tradicionais. E nas gôndolas de supermercados, assim como nas feiras especializadas ou não, tudo era vendido como orgânico. O caso se tornou um problema de saúde pública, uma vez que os consumidores, confiando na pureza das hortaliças, frutas e verduras, deixavam de lado o antigo hábito do processo de descontaminação, uma precaução existente quando não se tratava das variedades orgânicas consideradas limpas.

Uma população doente foi o que restou ao fim do movimento dos falsos orgânicos, como aquilo ficou conhecido. E para assegurar que aquela prática espúria seria banida daquela civilização para sempre, a comercialização de qualquer tipo de alimento rotulado como orgânico foi proibida, pelo menos até que aquele grupo de botânicos, de uma entidade privada contratada pelo governo central, apresentasse uma solução definitiva para o problema.

Assim, durante a pesquisa, por uma extraordinária casualidade, fizeram uma descoberta surpreendente. Na tentativa de criar um composto natural capaz de aumentar a resistência dos vegetais contras pragas, acabaram por tropeçar naquilo que, para os alquimistas, poderia ser considerada a descoberta da famosa Pedra Filosofal.

Não se tratava de uma analogia, uma vez que a descoberta representava, ilustrava de forma singular, esse conceito. E se naqueles tempos antigos os alquimistas e magos buscavam uma fórmula mágica capaz de transformar qualquer tipo de metal em ouro, naquele dia, dentro daquele centro de pesquisas, eles criaram o protótipo de uma poção natural, que, além de não contaminar os alimentos ou modificá-los geneticamente, era capaz de erradicar, com apenas uma aplicação a cada plantio, todas as pragas vegetais conhecidas do planeta.

Euforia total entre eles. E enquanto aguardavam o arrefecimento do efeito inebriante daquele êxtase coletivo, tiveram a ideia de testar um pouco mais, isso para eliminar eventuais falhas e prováveis efeitos secundários indesejáveis.

Mas, não existiam falhas ou efeitos colaterais, estava mais do que comprovado o sucesso da fórmula, uma revolução para o bem da humanidade. E o próximo passo seria apresentar os resultados aos seus superiores e os respectivos patrocinadores daquele estudo. No entanto, antes de demonstrar oficialmente o milagroso elixir resultante daquela alquimia, por questões de segurança ou prudência, com receio da concorrência ou de que pudesse cair em mãos erradas, decidiram não documentar por escrito nenhuma parte das combinações químicas do processo.

“Prezado colaborador. Lembre-se sempre de que, somos uma indústria com fins lucrativos. E isso quer dizer que, tudo que é feito aqui, mais tudo mesmo, é apenas por dinheiro; dinheiro e nada mais. Nossos laboratórios farmacêuticos, nossos centros médicos de referência, nossas centrais de produtos químicos e alimentos, tudo isso faz parte dessa cruzada financeira, que é nossa única razão existencial...”, eis a frase escrita num quadro gigante exposto no salão nobre, onde a novidade seria apresentada ao comitê patrocinador do projeto.

“Uma só aplicação e adeus as pragas das hortaliças, verduras, frutas, grãos, raízes, caules e alimentos vegetais de todos os tipos...”, repetiu cabisbaixo e reflexivo o presidente da grande corporação, após escutar atentamente a exposição dos bem intencionados botânicos.

“Imagine o senhor que somos a maior indústria do mundo na produção de defensivos agrícolas. Sem contar que nosso segmento farmacêutico é referência no fabrico de antialérgicos para os pesticidas que saem de nossas fábricas e contaminam as plantações; e há também nossos centros médicos que cuidam dos intoxicados. E com uma só dose desse elixir mágico, tudo isso iria por água abaixo? Na verdade, esperávamos dos senhores uma solução apenas paliativa, a exemplo dos remédios que não curam, e que não por acaso, representam nosso carro chefe. Coloque-se no meu lugar, o que os senhores fariam? Além disso, conversando aqui com meu amigo representante do governo, isso é preocupante, uma vez que uma população sem problemas é o mesmo que político com grandes problemas...”, completou o ilustre executivo.

Moral da história: Do ponto de vista dos políticos e governantes, um bom cidadão não parece ser aquele que pensa numa solução definitiva para um problema social, mas aquele que pensa num modo de criar mais problemas, a partir de uma aparente solução.

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
Veja mais detalhes sobre o autor nas notas abaixo.

Nota de Copyright ©
Proibida a reprodução para fins comerciais sem a autorização expressa do autor ou site.

Os Contos Reflexivos são reproduzidos com exclusividade com a permissão do Site de Dicas

[1] Alberto Grimm - albertogrimm@gmail.com
Antropólogo, Publicitário e Escritor. Especialista em Psicologia do Trabalho e Relações Humanas. É também pesquisador em Educação Integral e Consciencial. Torna-se agora mais um colaborador fixo do nosso site.
O autor não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

Mais contos do autor em: http://www.sitededicas.com.br/contos_reflexivos_index.htm

Sugestões de Leitura - Educação e Comportamento