Educação Integral e Consciencial
Educação Integral e Consciencial
A Criança e os Mimos, Mitos e Verdades
Editoria de Educação - 22 de Agosto de 2015
Autora: Anne Marie Lucille[1]
Se até para escovar os dentes precisamos compensar, então, algo está errado...
"Urgente seria descobrirmos, em nós mesmos, de forma clara, objetiva, quais são os nossos atuais problemas, e depois ensinarmos a nossos filhos como viver sem eles, e nunca como viver com eles..."
A Criança e os Mimos, Mitos e Verdades
A atenção e o carinho apropriado contempla também o correto esclarecimento, o que acaba por criar as bases para a verdadeira disciplina...
A Criança e os Mimos, Mitos e Verdades
A atenção e o carinho apropriado contempla também o correto esclarecimento, o que acaba por criar as bases para a verdadeira disciplina...

Sabemos bem como a indústria, o mecanismo social que criou a ideia do dar e receber presentes cada vez se firma mais como uma instituição sólida. Tornou-se uma religião, uma doutrina de vida, faz parte de todas as tradições, de todos os povos, em todos os tempos.

Mas, paradoxalmente, ao invés de um aumento da cordialidade e respeito entre os indivíduos, há cada vez mais antagonismo, relacionamentos em crise, o fim do sentido real de confraternização, e se ampliam os conflitos. Fica evidente que há uma falha grave em nosso modo de tratar tudo isso.

Então, para uma criança, cuja mente ainda carece de lastro, de experiência de vida para se tornar capaz de discernir sobre a complexidade do viver, o que significa para ela ganhar presentes, mesmo que seja como uma forma de abono ou incentivo para que cumpram com seus deveres mais óbvios?

Trata-se de um modo institucionalizado de convencê-la, muitas vezes, a cumprir algo contra sua vontade e desejo espontâneo. Convencer é o mesmo que forçar, obrigar, logo, embora ela não interprete como tal aquele gesto, é sem dúvida uma forma de corrupção. Fazer algo contra sua vontade só é possível através de compensações ou agrados vantajosos.

Ocorre que, por volta dos três anos de idade, quando já compreendem o mecanismo de funcionamento da convivência humana, nessa etapa, carecem de organização pessoal, disciplina e esclarecimento. Essa responsabilidade não é de mais ninguém senão dos pais. Logo, não adianta procurar outros culpados pelas eventuais falhas. E a ausência de uma cognição adequada conduz à indisciplina, e isso a torna indolente, preguiçosa, dependente em demasia dos outros, daí a necessidade de obrigá-la, por força de agrados, a cumprir com seus deveres mais elementares.

Direitos e deveres, esta matéria deveria ser a primeira em todo processo cognitivo, isso já desde os primeiros anos de vida. Na vida real, dentro das sociedades organizadas, os parasitas são aberrações, deformidades que causam desequilíbrio e representam uma ameaça concreta à harmonia entre indivíduos. Assim, ensiná-las desde cedo como a coisa funciona é dever dos pais, e depois, tudo isso deveria ser reforçado pelos educadores, em sala de aula.

É assim que tudo funciona, um ajudando o outro, e jamais, uns explorando os outros. Compreender essa regra básica é o primeiro passo para a autodisciplina. Disciplinada, a criança não precisará de agrados extras para cumprir com suas obrigações, e assim estará livre da sombra da corrupção, seja da parte dos pais, ou dos parentes, que usam de mimos e presentes como isca para exercer controle e criar admiradores. Mas não percebem que se trata de um gesto corruptor, com nefastos desdobramentos.

E a conseqüência é obvia e imediata. As crianças logo ficarão viciadas e dependentes de mimos e compensações. E toda sociedade patológica incentiva a prática. E há as datas festivas, e eventos de toda natureza, que reforçam e reafirmam o hábito. Viciadas em receber para dar alguma coisa, até um sorriso, o que podemos esperar das sociedades futuras? Qual será o caminho natural de alguém já corrompido, senão repassar aquilo que aprendeu e pratica para seus sucessores?

Se o mimo e o carinho genuíno, aquele que significa afeto, desde que seja coisa gratuita, é para nós uma forma válida e correta de se educar, as compensações corruptoras não o são. A regra é simples: esse mesmo mimo, quando se transforma em pagamento, torna-se para elas uma fonte de acomodação.

Devemos nos lembrar de que, naquela mente, ainda em formação, não existe nenhum conceito de regras sociais, nem a ideia do errado ou certo, ou de qualquer outra coisa. Aquela pequena psique, ainda sem nada escrito em seu roteiro existencial consciente, já sabe, por instinto, a exemplo dos animais irracionais, o que é satisfação. E satisfação significa que aquilo é bom, sendo, portanto, supostamente necessário à sua sobrevivência.

E a regra de sobrevivência do animal bruto, irracional, está centrada no seguinte preceito: se não favorece deve ser evitado, mas se ao contrário, favorece, deve ser aceito e cultivado. Mas, a criança racional ainda não sabe o que é ética, nem comportamento incorreto ou correto, muito menos sobre os malefícios dos vícios e manias, assuntos que já conhecemos bem.

Mimo, o carinho espontâneo, é coisa válida, e isso lhe proporciona a sensação de segurança, aumenta sua autoconfiança, potencializa a sensibilidade, melhora a qualidade da sua cognição, e nesse caso, é o único presente necessário.

No entanto, nós criamos algo novo, um tipo de autocorrupção, o conhecido processo do dar para então receber. Trata-se do nosso modo de vida, que está centrado nessa pratica. É dando que se recebe. E até nos livros sagrados isso se tornou um mandamento, um preceito existencial. E assim, até para sorrir, a criança passará a receber compensações. E doravante, nenhuma ação praticada em sua vida terá mais uma conotação espontânea, gratuita.

Nós lhes ensinamos tudo isso, elas não nasceram com esse repertório cognitivo. Depois, já crescidas, quando se tornam egoístas, competitivas, dispostas a destruir seu semelhante na simples defesa de um ponto de vista, como moscas desorientadas, ficamos a nos perguntar, “Onde será que falhamos?”

A verdade é que falhamos em tudo. E todo processo começou quando, desde cedo, inserimos em suas mentes uma diretiva que afirmava que nenhuma ação deveria ser praticada sem que existisse uma contrapartida. Trata-se da regra básica de todas as sociedades: é dando que se recebe. Está lá, em nosso manual básico de vida na terra.

Assim aprendemos, assim repassamos aos nossos filhos, e o resultado é o mundo que podemos ver hoje. Como esperar que o estado de compaixão sincera desperte em nossos filhos, quando tudo que lhes ensinamos é que “é dando que se recebe?” Poderá existir compaixão e respeito onde existe o desejo de compensação por alguma ação praticada?

Alguns defendem que não é possível educar sem tais mimos, agrados materiais, como se de fato isso significasse educação. De verdade, não precisamos corromper a mente de nossas crianças com sistemas cada vez mais elaborados de coesão, com promessas que jamais poderão ser cumpridas, tirando delas, logo ao colocar o pé fora do berço, sua capacidade de se expressar com naturalidade, espontaneamente.

A criança não precisa ser corrompida para cumprir com suas obrigações. Precisa sim, de esclarecimento e instrução para não se corromper. Isso se faz simplesmente não a corrompendo com os fáceis agrados de toda vida. Entretanto, depois de crescida, consciente das coisas, que mal há em a presentearmos, sem motivo, sem ocasiões especiais ao fundo; sem cobrança de coisa alguma, sem que o gesto esteja vinculado a ideia de mérito?

Editoria de Educação do Site Mundo Simples.
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[1] Anne Marie Lucille - annemarielucille@yahoo.com.br
Franco-brasileira, pesquisadora na área da Psicopedagogia e Antropóloga. Atua como consultora educacional especializada em Educação Integral e Consciencial.
A autora não possui Website, Blog ou página pessoal em nenhuma Rede Social.

Mais artigos da autora em: http://www.sitededicas.com.br/holistica_index.htm

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